Continue a Nadar

Este não será um texto triste, dramático ou romantizado, apenas um relato de um momento da minha vida, de uma experiência que vivi.


Há pouco mais de um ano entrei para a estatística brasileira do desemprego da mesma forma que muitas pessoas entraram: de forma inesperada. Sempre me considerei um bom funcionário, ouvia elogios dos inúmeros chefes que tive, era considerado uma “referencia” no trabalho que eu fazia, mas, por vários motivos (corretos ou não), fui surpreendido pela frase que nunca tinha encarado: “Você está sendo desligado da empresa”.

Lembro que, a cada minuto, do momento que entrei na sala com o pessoal de RH até o momento em que entrei no táxi que me levara para casa, me preocupei em respirar, não falar o que pensava (porque quando se fala o que pensa em momentos de raiva ou stress, é normal perder a razão) e segurar as lágrimas. O primeiro abraço apertado que recebi foi o suficiente para me derrubar e trazer o meu lado mais humano à tona, deixando a racionalidade de lado.

Do momento que entrei no táxi, no começo da manhã, até o momento que consegui dormir, às 22h, pouca coisa passou pela minha cabeça. De verdade! O que mais vivi foi uma chuva de mensagens positivas, surpresas, telefonemas de pessoas que choravam por mim, mensagens de apoio… pequenas e grandes coisas, cada uma a seu modo, que ajudaram a transformar o meu dia em algo menos doloroso.

Naquela noite, lembro que conversei com alguns amigos que foram demitidos no passado e, com certeza, teriam coisas muito boas para me passar e me ajudariam, de alguma forma, a entender quais seriam os próximos passos (acredite, há muita coisa para resolver entre sair de um trabalho e começar outro). Mas, naquela primeira noite, assistindo “Que horas ela volta?” sem ouvir ao menos uma palavra, tomei três decisões que nortearam os meus próximos dias.

Aprendendo a nadar.

Naquela noite li um texto no Medium e aprendi uma coisa que levo para todas/quase todas as situações da minha vida. Quando você entra em uma empresa, em um trabalho novo, sempre escuta alguém te dizer que “aqui te jogam no mar e você tem que aprender a nadar sozinho, pois ninguém vai parar para te ensinar nada”. Péssimo, mas todo mundo já ouviu isso. Isso tem seus pontos positivos e negativos, como tudo na vida, mas o que aprendi foi que aquele momento era novo para mim, era como se tivessem me jogado no mar e eu precisava aprender a nadar… mas quando você entrar no mar, não pode se desesperar, porque quem se desespera no mar, morre. Tinha que aprender a nadar naquele novo mar e o desespero não podia tomar conta da situação, pois quem se desespera, morre.

Esse momento de se controlar para não se desesperar se aplica a tudo/quase tudo: suas finanças, sua cabeça, entrevistas, propostas de trabalho…

06:30h da manhã.

Não, você não vai me ouvir dizer/escrever: “você tem que acordar as 06:30h da manhã para fazer o seu dia produtivo”. Não, não é isso. 06:30h da manhã, para mim, representava rotina. Gostava de malhar cedo, antes de trabalhar, aprendi assim e esse modelo funciona para mim. Na terça feira, primeiro dia no status de “desempregado”, acordei as 06:30h (triste, cansado, desanimado) e fui malhar. Fiz isso (quase) todos os dias que não trabalhei (de carteira assinada), pois queria continuar com uma rotina que me fazia bem. Queria acordar, malhar, pedalar, fazer meu café da manhã para depois começar o meu dia, fosse vendo YouTube, mandando currículos, assistindo Jornal Hoje, indo ao mercado, lendo aqueles livros que estavam acumulados na minha estante, fazendo entrevista, almoçando no centro com meus amigos.

Estabelecer uma rotina foi essencial, pois consegui me manter focado, organizado, tinha um compromisso diário, uma agenda… ficar de pijama em casa, todos os dias, acordando as 10h era realmente impensável para mim.

Você. Você!

Se a sua escolha (não estou falando de opção, pois às vezes não temos opção, estou falando de escolha), é voltar a trabalhar e estiver dedicado (não desesperado) para que isso aconteça, entenda esse momento como uma oportunidade única para você mesmo.

Sempre fui organizado, metódico, programado, me cobrando muito, estagiando desde o terceiro período da faculdade, trabalhando desde cedo… sempre gostei disso, pois tenho uma postura de me cobrar muito (por isso tenho cabelos brancos desde os 14 anos), seja por por reflexo da minha criação ou do meu signo, mas há muito tempo não tinha tanto tempo para mim. Tempo para os meus sonhos, meus projetos, para conhecer pessoas, locais, ver coisas diferentes, aprender yoga, aprender cross fit, testar receitas novas e diferentes, estudar algo que não fosse relacionado ao trabalho…

Ouvi de dois amigos naquela primeira noite: “aproveita muito, porque vai passar!”. Lembro de ver outros amigos que foram demitidos e viajavam, saiam para almoçar, faziam esporte, tiravam fotos felizes na praia… e eu, ingenuamente, julgando de forma errada, pensava “se fosse comigo, estaria em casa mandando currículo”. Mordi minha língua na primeira semana! Aproveite esse tempo para pensar em você.

É claro que tiveram os dias difíceis, mas eles eram compensados pela natação, corrida, aulas de bike indoor e musculação (tudo isso junto se repetiu quatro vezes, com intervalos de um mês), além dos encontros com amigos queridos, passeios com a minha mãe, noites de vinho ou gin tônica, conversas com o “grupo dos desempregados” (sim, éramos muitos)… e pelas entrevistas legais que fazia.

Sei que cada um vive uma vida diferente, sabe a dor e a beleza de ser o que é, tem suas responsabilidades, sonhos, compromissos, dinheiro guardado ou dívida acumulada… mas, para mim, Érico Cardoso Porto, esse período foi um aprendizado gigantesco! Não desejo que alguém seja demitido, mas, se isso acontecer, que se possa aprender e tirar o máximo de ensinamentos positivos desta fase (que não tem tempo ideal para durar). Além dessas três coisas que listei, garanto que aprendi a encarar o trabalho, o dinheiro, as prioridades (sejam elas profissionais ou pessoais) de forma diferente.

Isso não é ser evoluído, o Buda na montanha, o adulto ensinando o jovem, o caso de sucesso, uma apresentação de TEDx… é apenas o relato de uma fase da minha vida. Hoje não faço mais parte da estatística do desemprego, mas olho para trás e vejo que foi essencial para a construção de quem sou hoje.

Para aqueles que fazem parte da estatística, não desejo sorte na procura de um bom emprego, mas torço pelo encontro daquilo que queira ser e fazer.

@ericocardoso

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