memento mori

sonho ruim
pesadelo de anos
acordo antes de abrir os olhos
só agora descubro
na contagem dos sentidos não tenho paladar
nem tato
mas já sinto o cheiro da carne nos açougues
e lá fora as cores da noite cegam-me os olhos e me chamam ao centro, abafando o som do meu coração batendo forte
me ponho a andar pela terra dos homens
sem medo da morte
(que já anda
tão próxima quanto meu sangue fervendo) em êxtase
no meu matadouro
vou estancando toda a dor onírica de anos sentida.
a juventude bate à porta
em grito proclama palavras chulas
trazendo seu caminhão de mudança logo atrás
[estou sim, de mudança
habitarei agora os patrimônios imateriais
junto dos marginais
escondidos no interior da cidade
em ganchos vamos pendurando a verdade
de cabeça pra baixo
numa arte cheia de anseio
eu mergulho
entre os faróis vermelhos sempre verdes nos sinais
e há agora torres de energia ornamentando a avenida pela qual andei quando dormia
avenida da ponte
da estrada que leva até minha periferia
de onde eu consigo ver as luzes borradas dos edifícios do centro
caminho rápido pelas ruas sem pavimento
a noite tem cheiro forte,
e eu já o sinto
ouvi falar da escuridão
e vejo-a vindo.
eu estou mudando
mas dessa vez é diferente
dessa vez eu sei, estou vendo e sentindo a dor de minhas mudanças
como sangue escorrendo de uma ferida suja e aberta em meu rosto
nunca foi assim
antes eu só percebia minhas mudanças muito depois delas terem me mudado
por todas as cidades pelas quais passei me escondendo entre os quartos apertados
vivendo uma vida onírica, não minha
não mais
me respondo agora
dessa vez eu vejo
dessa vez eu percebo
dessa vez eu sinto
eu cresço.
