Ter coisa chata pra fazer é melhor do que não ter nada pra fazer.

Eu estaria acordando. Depois, passaria uns minutos pensando se valeria a pena ou não levantar da cama. Para tal, levaria em conta se as aulas do dia seriam legais, se haveria alguma prova ou entrega de trabalho e se eu realmente estaria disposto a pegar dois ônibus até a escola. Chegaria à óbvia resposta: não. Não valeria a pena levantar da cama.

Então, eu levantaria da cama.

A vida não vale a pena, e todos vivem.

Chegaria ao banheiro, tomaria um banho. Voltaria ao quarto, colocaria o uniforme e correria em direção à porta. Procuraria as chaves no bolso, falharia miseravelmente. Voltaria pro quarto, bagunçaria a mesa, a cama, debaixo da mesa, reviraria o guarda-roupa e, então, desistiria de procurar. Sentaria na cama, triste. “Tomei banho à toa”. Lembraria que, ontem, havia deixado as chaves em cima da mesa.

Estaria atrasado. Correndo pelas ruas do Rio de Janeiro comendo biscoito, enquanto seguraria uma caixinha de suco de manga para uso futuro. Veria meu ônibus indo embora. Teria que esperar o próximo. Esperaria o próximo. Pegaria o próximo. Chegaria à cidade da minha escola, pegaria outro ônibus até o bairro da minha escola. Chegaria à minha escola. Entraria na sala. Teria aula. Aprenderia sobre algo que “cai no vestibular” e, consequentemente, estaria entediado.

Muito entediado.

O sinal iria bater e todo mundo começaria a conversar. Seria a hora do recreio. Alguns levantariam de suas mesas em direção ao pátio, outros em direção à biblioteca, um ou outro em direção ao refeitório e uma pequena minoria continuaria sentada. Eu seria de tal minoria. Observaria todos passando pela porta com seus sorrisos e mãos balançando. Colocaria a mochila em cima da mesa, ajustaria a cadeira de uma forma confortável pra mim e, solenemente, deitaria a cabeça na mochila. Fecharia os olhos.

— Pedro, acorda.

Olharia pra cima lentamente. Minha visão estaria desfocada e os sons da sala estariam confusos pra mim, mas ainda conseguiria ver todo mundo levantando das mesas com suas mochilas nas costas e conversando o mais alto possível.

— Tu tá bem?

— Tô sim, vei. Só dormi demais.

— Ata, até amanhã, então.

Eu me levantaria, limparia a baba do rosto e pegaria minha mochila. Passaria pela porta da sala e andaria o mais rápido pra fila do almoço, que estaria enorme. Chegando lá, ficaria logo atrás do Caio, o garoto que me acordaria. Ele diria:

— Coé cara, pensei que iria direto pra casa.

— Pois é. Resolvi almoçar na escola hoje.

— Ah sim… Tu vai passar o Natal onde?

— Acho que em casa mesmo.

— Pô, vou pra casa dos meus tios.

— Ata, legal.

— É, legal …

Camila, ex-namorada de Caio, chegaria à conversa:

— Oi, gente.

— Oi.

— Oi.

O refeitório estaria cheio. Muito cheio. Tão cheio que estariam todos abanando suas mãos em direção ao rosto. Daria pra ouvir uns “Nossa, que calor” atrás de mim na fila. No teto, alguns ventiladores girariam, mesmo que lentamente, quase parando.

Estariam lá, mesmo que ninguém notasse.

Estariam girando, lenta e dolorosamente, em cima da minha cabeça, da cabeça do Caio, da cabeça da Camila e de todos os esfomeados presentes.

Ventiladores giram.

É o que fazem.

Girar.

E eu estaria em um refeitório cheio deles, enquanto teria conversas chatas, depois de ter aulas chatas, após fazer coisas chatas pra chegar à escola, que, por sinal, é chata.

Isso, se eu não estivesse de férias. Pois, como estou, meus dias se resumem a acordar e dormir.

Férias. Aquela parte do ano destinada ao repouso, à “curtir a vida”. Aqueles meses em que você não é obrigado a fazer nada em relação à escola. Mas, na realidade, férias são um saco.

Ter coisa chata pra fazer é melhor do que não ter nada pra fazer.