Resenha: O Duplo, Fiódor Dostoiévski

Érika Batista
Jan 26, 2019 · 12 min read

Desde o ano passado que venho revisitando algumas obras do Dostoiévski desta compilação abaixo, obras que devorei em português muito tempo atrás, e minha primeira leitura deste ano foi uma delas: O Duplo (Двойник).

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Li esta novela há muito tempo e mal lembrava o enredo, o que me deu a oportunidade de apreciar a leitura como se fosse a primeira vez.

Cabe avisar que muitos detalhes da história serão mencionados nessa resenha, para que eu possa explorar minhas teorias sobre sua interpretação, então leia-a por sua conta e risco.

O Duplo pode ser considerado uma tragicomédia que brinca com os limites do fantástico. Isso e o fato de a novela ser protagonizada por um “pequeno homem” (malenkii tchelovek) — um funcionário público sem grande expressão social, com todos os complexos que essa condição acarreta à sua personalidade — fazem com que o livro tenha uma pegada gogoliana.

A influência de Gogol não é tão forte, porém, que nos impeça de ver a assinatura de Dostoiévski em cada personagem, em cada cena, em cada frase incompleta do protagonista, o Conselheiro Titular Iákov Petróvitch Goliádkin. Dostoiévski tem uma abordagem toda especial do “pequeno homem”, abordagem que, conforme Paulo Bezerra aponta neste texto muito recomendado, aparece com vigor em O Duplo.

Quando somos apresentados ao senhor Goliádkin, ele está de muito bom humor. Prepara-se para uma ocasião especial. Do que se trata, não sabemos, mas é visível que ele apostou todas as suas fichas no sucesso desse dia. Há conversas meio suspeitas sobre uma carruagem, uma libré, roupas elegantes e uma carteira cheia de dinheiro que nos fazem pensar em qual seria a tramoia em que o herói está metido. Essa impressão permanece enquanto ele desfila pela cidade, todo na beca, e negocia a compra de muitos itens de luxo. Seria Goliádkin um estelionatário?

Nossa especulação é interrompida, porém, quando Goliádkin, sem quê nem porquê, resolve visitar um médico. O médico já o conhece de uma consulta anterior em que receitou um preparado, e não parece contente em revê-lo. Não entendemos muito bem o que “nosso herói” — como o narrador gosta de chamá-lo — faz ali. No fundo parece que só quer alguém com quem desabafar. Amigos, pelo jeito, ele não tem.

Logo somos jogados de volta na trilha principal da história e — por umas pistas colhidas na consulta — descobrimos qual é o objetivo do senhor Goliádkin: ele caprichou no visual porque está interessado na filha do seu antigo benfeitor, Olsufii Ivánovitch, e pretende demonstrar suas posses e sua pose na festa de aniversário dela, naquela tarde.

Goliádkin não conta com o fato de que não lhe deixarão entrar nessa festa. Mesmo após ter sido literalmente barrado no baile e ficar baqueado pela notícia, ele não desiste do projeto em que investiu tanto e, escondido junto às tralhas na despensa do prédio de Olsufii Ivánovitch, aproveita uma oportunidade e entra de penetra na festa. Sem muita demora, acaba se atrapalhando, sendo expulso na frente de todos e, quando ele volta para casa, debaixo do clima mais terrível de São Petersburgo e completamente ausente de si, pela primeira vez nos defrontamos com o duplo.

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Encontro de Goliádkin com o Duplo na ponte. Ilustração de um estudante da Escola de Artes nº 2 da cidade de Novokuznetsk para o concurso “O mundo de Dostoiévski pelos olhos das crianças”.

No dia seguinte, Goliádkin vai trabalhar preocupado com o efeito que seu comportamento do dia anterior teria tido nos colegas. Para sua surpresa, ele não ouve nenhum comentário a respeito da expulsão da festa; mas o ontem desagradável se faz presente para ele quando descobre que admitiram, no mesmo setor em que ele trabalha, o sujeito que ele encontrara na ponte. O homem em questão o assustava por ser seu sósia perfeito, como se fossem gêmeos idênticos. Até a roupa é igual. E, no entanto, ninguém parece notar a semelhança antes de o próprio Goliádkin apontá-la. Sondando seu chefe de mesa sobre a identidade do desconhecido, ele descobre que o homem tem o mesmo sobrenome dele e que também não é de São Petersburgo, tendo vindo da província.

Goliádkin, a quem a ideia de ter uma cópia sua por perto desagrada profundamente, quase muda de parecer mais tarde naquela noite, quando o novato recorre a ele, pedindo abrigo e ajuda. O duplo — que também se chama Iákov Petróvitch — conta uma história triste sobre como foi injustiçado no lugar de onde veio, por causa de uma trama de inimigos cruéis, e de como chegou a São Petersburgo na miséria, morando de favor, usando roupas emprestadas… A história dos inimigos enternece Goliádkin que, com um pouquinho de álcool na cabeça, acaba contando mais do que deve para o novato, enquanto eles se juram amizade eterna.

Essa atitude, como o próprio Goliádkin intuíra, acaba se provando um grande erro.

Pelo resto da história, acompanhamos o impostor tomar pouco a pouco a vida do “nosso herói”. Rouba-lhe o relatório e o louvor da chefia… com seus hábitos extrovertidos e lisonjeiros, conquista os colegas de trabalho do Iákov Petróvitch original… e, ao que parece, tece intrigas pelas costas do herói, difamando-o e aproveitando a semelhança física para cometer atos desonrosos e colocá-los na conta (às vezes literalmente) do Goliádkin-mais-antigo.

De enrascada em enrascada, a vida do Goliádkin-original vai ladeira abaixo, seja por causa de complicações externas ou de suas próprias decisões impulsivas e desesperadas, até que o vemos partir, numa reprodução da cena “barrados no baile”, sob a escolta do médico lá do começo da novela, a toda evidência sendo levado para um hospício.

Em sua opinião, Goliádkin foi finalmente derrotado pela perseguição implacável de seus inimigos… mas as nuances da história nos sugerem uma explicação diferente.

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O. Markina. “Dvoinik”.

Dois homens ou duas personalidades?

Digno do nome O Duplo, o final do livro é dúplice, ambíguo. Como a história é narrada toda do prisma do “nosso herói”, é a versão dele que lemos, e o autor não deixa claro se essa versão é a verdadeira. Pode ser que sim — histórias semelhantes acontecem pelo mundo, raramente, mas acontecem, como diria Gogol.

No entanto, a forma quase mágica com que o duplo aparece em todo lugar onde entra o “nosso herói” nos faz suspeitar que há algo de podre no reino da Dinamarca. E, enquanto Goliádkin se tortura, tendo pesadelos com a cidade cheia de cópias dele cometendo atos vis que acabam por ocasionar a prisão de todas as cópias, ficamos cogitando se o duplo existe mesmo.

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Guarda da capa de uma edição russa de O Duplo. Linogravura.

O interesse de Dostoiévski por personagens com problemas de saúde físicos e psicológicos transparece em muitas das suas obras. Na maioria das vezes, no entanto, esses transtornos não são formalmente identificados — até porque a psicologia só veio a existir formalmente como ciência (1879) bem no fim da vida de Dostoiévski (1821–1881) — , e só pelas características dos personagens podemos vislumbrar a presença de narcisismo, complexo de inferioridade e outras neuroses em alguns deles.

Goliádkin parece ser mais um desses casos.

Relembremos. “Nosso herói” acorda agitado para um dia que considera que será o ponto de virada de sua vida. Ele dispendeu imensos recursos de sua parca poupança para encaprichar sua figura, e andou negociando pela cidade em lojas chiques, passando uma imagem de si além das posses que ele realmente tinha. Porque ele também pode. Existe uma necessidade de provar (para si mesmo, em primeiro lugar) que ele não é em nada pior que os outros — em especial, talvez, que o seu rival, o recém-promovido sobrinho do chefe.

Ele está tão inquieto, porém, que no meio das suas corridas, faz um desvio para o consultório de um médico. Médico do quê? Não sabemos. Não dá para descobrir pelas queixas desconexas de Goliádkin. Aliás, é uma característica marcante do personagem que ele quase nunca fala — e, às vezes, sequer pensa — as coisas com objetividade. Recorre constantemente a insinuações, meias palavras, deixa as frases pendendo…

Discurso e comportamento desorganizados é um sintoma de esquizofrenia paranoide.

O médico, no entanto, com alguma habilidade, entrando na conversa dele, consegue arrancar informações soltas. Um farmacêutico que não sabe a quem deve honrar… um jovenzinho que acha que já pode casar… a filha do seu benfeitor… intrigas, intrigas dos seus inimigos, que espalharam o boato de que ele tinha jurado se casar com uma cozinheira… imagine só, uma cozinheira! (Mania de perseguição, outro sintoma típico de esquizofrenia). Mas ele não é como seus inimigos, dado a gastar as solas nos salões. Não tem muitas qualidades, mas ama sinceramente, e o principal, não é um intrigante!

E Goliádkin acaba indo embora sem dar chance de o doutor desvendar seu problema, quanto mais resolvê-lo.

Mais tarde, quando Goliádkin finalmente se dirige ao evento para o qual se preparara por tanto tempo, transbordando de ansiedade, não o deixam entrar. Imagine-se o impacto que essa contrariedade totalmente inesperada (afinal, ele achava que, naquela casa, ele era praticamente da família) teve na mente explodindo de ansiedade de Goliádkin? Mas não parou por aí. Ele acaba entrando de penetra na festa… só para se atrapalhar e ser expulso de maneira ainda mais embaraçosa.

Penso que essa segunda vergonha foi mais do que Goliádkin conseguiu suportar, e ali ele sofreu um colapso. O transtorno dissociativo de personalidade, antigamente conhecido como dupla personalidade, surge justamente como reação a um trauma, para ajudar alguém a evitar memórias ruins. A pessoa desenvolve uma segunda identidade, ou até várias outras, que podem ou não ter nome, histórico e características de personalidade diferentes do seu eu original.

O duplo — que, segundo o protagonista, ele já vinha pressentindo e tendo a impressão de vislumbrar aqui e ali — finalmente se materializa. É simbólico que esse capítulo acabe com Goliádkin encontrando o duplo em seu próprio apartamento, mas o seguinte já comece com ele acordando, sem sinal do duplo no quarto, e não saibamos como é que ele saiu, se saiu, se conversaram.

No outro dia, quando Goliádkin acha que todo mundo estaria falando do seu escândalo, não escuta nenhum rumor. A memória é bloqueada pelo aparecimento do duplo no trabalho. O transtorno cumpriu o seu papel.

Qual é exatamente a natureza das coisas bizarras que acontecem desde que o segundo Goliádkin entra na história, eu não tenho certeza. Será que é o protagonista quem comete as vilezas que atribui ao “impostor”? Será que as coisas acontecem mesmo, ou o Goliádkin-original apenas as imagina? Há sinais nos dois sentidos. Cartas que somem, ou que, segundo revela o empregado Petrushka, em sua sinceridade de bêbado, nunca existiram… Bolinhos supostamente comidos pelo duplo na cafeteria, mas que pode bem ter sido o próprio herói quem comeu, momentos em que o Goliádkin-original enxerga o Goliádkin-novo “em uma porta, que até então tomara por um espelho…”

Os sinais de esquizofrenia que Goliádkin apresentava desde o começo também vão se agravando. Ele sofre lapsos de memória e de consciência. Está cada vez mais convencido de ser vítima da armação de seus inimigos. E ora o cabeça dos intrigantes é seu chefe Andrei Fillípovitch, ora é a dona de pensão com quem pelo jeito ele prometeu, mesmo, se casar, ora é o Goliádkin-falso… As responsabilidades voam de um para o outro dependendo do nível de animosidade de Goliádkin para com cada um no momento.

Enredando-se cada vez mais no seu drama particular, Goliádkin vai de um lado para o outro, desafia o duplo para um duelo, manda o criado incomodar o colega altas horas da noite para pegar o endereço do duplo (que, curiosamente, é o endereço do próprio Goliádkin), falta ao trabalho… e se surpreende quando sofre as consequências desses atos. Atribui tudo à maldade dos inimigos. O nervoso excita sua fantasia e, além das perseguições, por fim ele, ao que tudo indica, imagina também aventuras agradáveis, eventos que desejava: sua pretendida, a senhorita Klara Olsufiévna, supostamente lhe escreve uma carta pedindo para fugirem juntos para casar.

E é assim que ele vai parar no cenário final da história — o mesmo em que ocorreu seu colapso, num belo encerramento do ciclo — onde lhe prestam, afinal, socorro profissional. Vê-se que as pessoas presentes parecem entre curiosas e apiedadas dele. Quem ele tomava por inimigo na realidade estava, muito provavelmente, tentando ajudá-lo, inclusive seu criado Petrushka, que passa uma conversa no patrão enquanto vai buscar reforços no andar de baixo do prédio para impedi-lo de cometer a besteira de ir atrás de Klara Olsufievna por causa da tal “carta”, provável fruto de um delírio.

Um último apontamento: é curioso que Goliádkin nunca consiga chamar o duplo pelo nome, quando tenta pedir providências contra ele aos seus superiores. Ele se refere ao suposto impostor como a “pessoa conhecida” (izvestnoe litso), e nisso acaba por ofender os chefes, que interpretam mal a quem alude Iákov Petrovitch com suas insinuações.

É verdade que o herói tem, de modo geral, um modo fragmentado de falar; mas será que, para além do efeito cômico, sua dificuldade em mencionar o nome do seu atormentador não se deve ao fato de, no fundo, ele ter consciência de que esse atormentador não existe — de que esse atormentador é ele mesmo?

E essa, na minha interpretação, é a grande sacada do livro. Não faço ideia se Dostoiévski quis deixar essa mensagem nas entrelinhas, mas eu a captei: no fundo, seu pior inimigo e a única pessoa que realmente consegue arruinar sua vida…

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…é você mesmo.

BÔNUS: O Duplo (2013, Richard Ayoade)

Logo depois de ler o livro, lembrei que tinham feito um filme baseado na obra, com o ator que interpretou o Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), e resolvi que, já que eu estava com tudo fresco na mente, não custava assistir e avaliar a adaptação. Aqui vai o trailer:

A obra não chega a ser baseada no livro do Dostoiévski, está mais para inspirada. Foram alterados o cenário, a época, os nomes dos personagens, hierarquias e vários detalhes, mas uma parte das cenas e dos acontecimentos principais foi mantida.

Eu já tinha uma noção de que o filme se aferrava apenas de leve à novela dostoievskiana, mas, mesmo assim, esperava mais dele.

O cenário futurista-antiquado, numa mistura de década de quarenta com década de oitenta e um cheiro de ficção científica, a iluminação escura, as músicas japonesas em momentos inesperados e a bagunça que fizeram com as mudanças no enredo tornaram a obra mais confusa do que o livro já é. Aparentemente, não fui só eu (e meus irmãos, que assistiram comigo) que tive essa impressão. Basta dizer que o primeiro comentário ao trailer de O Duplo, no YouTube, é: QRIA DEIXAR MEUS MAIS SINCEROS, N ENTENDI P**** NENHUMA E ASSISTI DUAS VEZES.

A alteração mais grave, porém, e que eu acho que foi a que me deixou como uma má impressão do filme, foi a mudança na personalidade do protagonista. O Simon James é muito mais coitadinho que o Iákov Petróvitch.

É verdade que fica difícil transmitir a essência de um personagem que fala de maneira bastante entrecortada e que no livro conhecemos primordialmente por fluxos de pensamento. Todavia, algumas adições no roteiro facilitaram esse desvirtuamento: a mãezinha no asilo, cujo dono explora Simon sem piedade e sem um pio por parte do rapaz; a própria personalidade da mãe, que é mais uma na fila dos que humilham o protagonista, mas que ele, ainda assim, não deixa de amar e visitar; e, por fim, toda a história romântica dele com a moça da copiadora.

Os roteiristas criaram um romancinho-de-amor-puro bem à moda anglo-saxônica para Simon; mas, no livro, as coisas não são tão preto no branco. Não sabemos qual o motivo real do interesse de Iákov Petróvitch em Klara Olsufievna. Pode muito bem ser um interesse mais social e até financeiro que romântico, ou uma mistura dos três. Tanto assim que, no auge da sua loucura, quando acha que ela quer fugir com ele e se põe a esperá-la no pátio, Goliádkin é rápido em julgar e condenar o comportamento da moça, assim que o frio começa a pesar e o cocheiro a incomodá-lo.

Fora que, no filme, o núcleo romântico, que é apenas um dos problemas de Iákov Petróvitch, passa a ser seu problema principal.

Mudando-se a personalidade do herói, mexeu-se na essência do livro e, por isso, para quem vem com a leitura recém-terminada, como foi o meu caso, o desapontamento é inevitável. E a alteração do final também teve um impacto negativo para a história.

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Ainda assim, pelo que eu vi por aí, a avaliação do filme oscila entre 3 e 4 estrelas de cinco.

Então, para quem quiser assistir e fazer seu próprio juízo da obra, vale avisar que O Duplo está na Netflix.

E nos vemos logo mais, espero, com uma resenha de Memórias no Subsolo ou de O capote, duas leituras do ano passado cujo comentário estou devendo por aqui.


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