Preciso me encontrar

Erika Moreira
Aug 9, 2017 · 3 min read

Imagine que a vida é uma página em branco do Word. Eu me vejo diante dela pensando em como preenche-la da melhor forma possível. Porque se a vida se resumisse a essa única página, a pressão sobre esse texto, que escrevo agora, aumentaria drasticamente. É como se, de repente, cada linha escrita se tornasse uma decisão sem volta. Cada escolha de palavra, cada vírgula, tudo isso seria um caminho sem volta. Não fosse, é claro, pela tecla “delete”.

A emblemática página em branco é promissora. Tudo, absolutamente tudo pode ser feito nela. E é justamente por isso que essa danada é o ícone do bloqueio criativo. Quando estamos diante de todas as possibilidades do mundo, escolher uma delas se tona uma tarefa quase impossível.

Tenho 26 anos, faço parte de uma geração que foi apresentada a internet quase que na adolescência. A partir daí, um universo de novas possibilidades se abriu e continuou expandindo. Quando me dei conta, a vida se tornou uma página em branco do Word. Só que online e ditada por dois conceitos básicos da modernidade: o obsoleto e o banco de dados.

As pessoas da minha geração passam a vida toda oscilando entre o passado e o futuro. O primeiro porque as timelines instagramnianas e facebookianas não nos deixa esquecer jamais de que não podemos nos esquecer jamais. E o banco de dados do Messenger, WhatsApp, os dos e-mails trocados nos mostra que o passado nos condena sim, e talvez ele nos condene para sempre.

Quanto ao futuro, já faz tempo que a Deus não pertence. Porque se pertencesse seria moleza. Ninguém sofreria de ataque de ansiedade ou depressão, por exemplo. O futuro, meus amigos, a nós pertence.

Eu sei que é bem clichê dizer isso, mas vivemos numa época em que o futuro se torna obsoleto rápido demais. Tudo é muito “last season”. O único fator invariável é a nossa permanente insatisfação. Somos incapazes de nos sentirmos plenos, porque a plenitude está ligada ao presente. E por mais contraditório que isso possa parecer, nós não vivemos o agora, nem os sentimentos do agora, nem nada.

Vivemos nesse limbo entre as frustrações passadas e as aspirações futuras. Na pressão da página em branco do Word em busca do texto perfeito, da vida perfeita, o que torna tudo mais aflitivo. Entre o agora e as aspirações futuras existem todas as possibilidades do mundo. É terrivelmente assustador, é lindo e é poético. Porque escolher uma possibilidade implica em não escolher todas as outras. Toda ação carrega em si o peso de centenas de milhares de negações.

Eu, por exemplo, já passei da metade deste texto. Minha página em branco já não está mais tão em branco assim. Eu fiz escolhas dentro deste vasto, quase infinito, campo de possibilidades. E vou ter que conviver com elas. Eu e você, meu cúmplice que está lendo esse texto.

Não sou ex presidente de nada, mas “nunca antes na história” tivemos tantos caminhos a nossa frente. Tipo, agora, quando vou chegando ao fim desse texto. O mesmo que eu comecei encarando uma página em branco. Aqui reside a prova incontestável de que toda escolha resulta em consequências. Estamos eu e você diante de todas as possibilidades do mundo. O que vamos fazer com isso, é outra história.

    Erika Moreira

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