Herchcovitch, a marca: o fim de uma era.
Se faltava algum elemento para explicitar a falência do sistema atual da moda, movimento em que a brasileira se inclui com extraordinária propriedade, recebemos ontem a notícia da saída de Alexandre Herchcovitch da marca que criou há 23 anos.
Casos de aquisições mal-sucedidas de marcas por grandes conglomerados incluem Isabela Capeto, Fause Haten, Marcelo Sommer e até mesmo a Luminosidade, que foi e voltou sem muito alarde. Era aquele momento em que “vender a marca” parecia 1) seus problemas acabaram. 2) garantia de uma administração melhor. 3) dinheiro no bolso. Bem sedutor.
Muitas empresas têxteis no Brasil funcionam sob o modelo familiar. Ou passaram do formato doméstico, cresceram rápido demais e não conseguiram se estruturar para seu novo tamanho. Estilistas, salvo raríssimas exceções (Alexandre Herchcovitch uma delas), são criadores, são artistas. Não têm nenhuma vocação para o administrativo, para a conversa chata e incompreensível dos contadores, para o tédio das planilhas, para negociar ou sequer saber seu próprio valor. Daí, comumente são mal assessorados. Seja por parentes, por gente sem formação, ou por gente que não entende nem quem entender de moda. Isso vale para quando os investidores passaram a gerir os negócios. Como explicar para um sujeito formado em economia ou ADM que certas roupas precisam ser dubladas (oi?). Que o zíper não pode ser tosco. Que o botão tem de ser especial. Que a cava precisa ficar no lugar. Que costureira também é gente. Que tem que fazer campanha, anúncio e, acredite, veiculá-los _na internet, na mídia impressa, no carro da pamonha, que seja.
Moda é feita de sonho e desejo. E alguns sonhos não têm preço.
O crash de culturas empresariais é o primeiro desafio a ser superado. Fantasia vs. Excel. Dificuldade complexa de ser superada - não é quando a gente se acostuma com aquele-cara-chato-e-mal-caráter-que-entrou-na-firma e se senta perto de você falando alto ao telefone ou berrando palavrões com sua equipe. Ah, é muito mais complicado do que isso.
As histórias que emergem como bem-sucedidas sobre aquisições escondem sob elas muito rivotril, muita ansiedade e doses diárias de bastante frustração. Números, metas, lucro, estresse para todo lado.
Quando alguém decide recuar, seja lá por qual motivo, independente de ter tido um grupo por trás que não deu certo, por um "motivo pessoal" ou porque simplesmente prefere sair do instagram (OMG) a continuar com aquela vida, no Brasil é visto como um perdedor, como alguém que não conseguiu dar conta da pressão ou não soube fazer. Quando isso acontece, a pessoa se transforma num pária — ao menos até a próxima volta por cima. Disso todo mundo gosta. Mais da parte do pária. Na moda, também com poucas excessões, ninguém torce por ninguém. Essa é a real.
Tem horas que só pedindo pra sair mesmo. O que não faz de ninguém mais fraco. Ao contrário, saber recuar é uma arte. De guerra, aliás,
Agora ainda temos Raf Simons e Alexander Wang para, colonizadinhos que somos, usarmos esses designers como (bom) exemplo.
E sabemos que uma pessoa séria como Alexandre Herchcovitch deve ter lá seus excelentes motivos para abrir mão da marca cujo nome ensinou o mundo a escrever.
Herchcovitch se despediu diante de nossos olhos. Como fez Bowie. Alexandre o fez com seu livro-retrospectiva lançado no ano passado, com todos os seus amigos e colaboradores por perto e, principalmente, com seu último desfile, em que fez o que quis e não fez o que não quis, mostrando também como bem entendeu na passarela — montada na Prefeitura de São Paulo. Estava tudo lá: o fetiche, o bondage, o jogo de sexo e poder, a beleza dark e interiorizada, o preto, a melancholia, o glamour que poucos entendem, e Geanine Marques. Os mais atentos sentiram o perfume diferente. No mínimo, de rewind e recomeço. Estilista autofágico, que destroi o que fez imediatamente para, na temporada seguinte, obrigar-se e a se desafiar a criar o novo, Herchcovitch é nisso um mestre, como faz também outra antena, Miuccia Prada. Diferentemente de Bowie, Herchcovitch, desnecessário dizer, está vivo.
Assim, os bem-vestidos carniceiros da moda no caso de Alexandre não precisam se preocupar com ele (as if). Talentoso ao extremo, disciplinado e bom administrador, enquanto você lê este texto ele já se reinventa. Antes de você saber de que modo, teremos seu reality show, que todos iremos assistir para matar as saudades de sua personalidade peculiar e expertise de mestre.
O que será do SPFW já chega a ser mais preocupante. Reinaldo Lourenço, o jovem Vitorino Campos e mais alguns que sequer chegam aos dedos de uma só mão não vão conseguir carregar "a semana de moda mais importante da América Latina” nas costas.
A marca, quem vai assumir? Possivelmente uma equipe, desdobrando os conceitos que Alexandre tão solidamente estabeleceu para a marca. Se não, desde já, meus respeitos a quem tiver a coragem de “ficar no lugar dele”.
Na condição de ter sido a primeira a falar na grande imprensa de um estilista que criava roupas para drags e personagens da noite nos anos 90 e que, de lá pra cá, tornou-se o maior nome da moda brasileira dos nossos tempos, sinto-me no direito de afirmar: é o fim de uma era.
A flecha do tempo, entretanto, aponta sempre para o futuro. Felicidades, Alexandre. Obrigada pelas incríveis experiências que você nos proporcionou e por sua inspiradora coragem.