Ansiedade

Este texto não é uma consulta médica, ok? Até porque não sou da área. Espero esclarecer alguma coisa sobre o chamado ‘mal do século’ do ponto de vista do paciente. A mídia e os fazedores de livros adoram um alarde e a ansiedade é uma das bolas da vez. Tem gente pra caramba passando por isso como eu, então surgiu a ideia de compartilhar minha experiência.

Pra começar do começo, o que exatamente NÃO é ansiedade do ponto de vista clínico?

Muita gente se considera ansiosa em certos momentos da vida e atribui essa denominação a uma sensação de leve agitação, ou à fome exagerada, ou à falta de fome, à insônia eventual ou à sensação de antecipação por algo que está por vir. Até aí tudo bem, normal. Essa ‘ansiedade’ é muito comum, e nada tem a ver com a patologia, é uma reação esperada, típica do comportamento humano e pode até passar despercebida em meio à profusão de sensações que cada pessoa manifesta ao longo de sua vida. Você pode se sentir ‘ansioso’ e deixar de se sentir assim e nem se dar conta disso. E se é esse o seu caso, você provavelmente é uma pessoa ok e não precisa de nenhum tipo de tratamento específico. Só alegria pra você! Pode desencanar deste texto.

Mas e o que É de fato ansiedade?

A ansiedade, na qual eu me encaixo, unfortunately, é a ansiedade como patologia. E essa é bem diferente da ansiedade que descrevi acima. É uma manifestação física geralmente exacerbada de origem psicológica, ou talvez psiquiátrica (?), algo assim, não sei o termo correto. Algo que muitas vezes demanda um tratamento e/ou psicoterapia para ser controlado.

Mas como saber se a minha ansiedade é algo comum ou uma patologia?
Vai por mim, é muito, mas muito difícil mesmo, confundir uma coisa com a outra. E o melhor jeito de descobrir, é geralmente também o pior jeito, ou seja, tendo uma crise de ansiedade. :( Com sorte, você pode até suspeitar de ansiedade patológica e consultar um médico antes da sua primeira crise. Good luck with that! Comigo não foi assim, descobri depois de incontáveis crises, por isso, eu duvido muito que exista de fato essa possibilidade.

Mas e aí como isso tudo começou?

Por muitos anos eu me convenci de que meus miolinhos eram totalmente saudáveis, e que os episódios de desconforto e mal-estar que tinha de tempos em tempos nada mais eram que problemas gerados por má alimentação, por cansaço, viroses, gastrite, enxaqueca, rotavírus entre outras desculpas esfarrapadas que eu preferia dar pra mim mesma ao invés de admitir que havia algo fora do meu controle. Talvez por arrogância da minha parte, ou por me considerar superior a esse tipo de doença, ou por ignorância mesmo em relação à variedade incrível de sintomas que a ansiedade pode ocasionar.
E tem mais: concatenar a causa, os sintomas e a doença não é tão simples assim, principalmente quando o objeto a ser observado é você mesmo.

Minhas crises de ansiedade começavam e começam geralmente com calafrios, tontura, dor de estômago, e evoluem para náuseas, distúrbios gastrointestinais, agitação e tremedeira. Sim, tudo isso assim mesmo. E sim, às vezes, tudo junto. Não, não é gostoso. Por isso mesmo os sintomas foram confundidos por vários médicos clínicos com uma infinidade de outras doenças. Eu não os culpo. Eles estavam tratando meus sintomas e investigando meu corpo. Não os meus miolos.

O psiquiatra não é um médico que todo mundo consulta uma vez por ano para ver se está tudo ok, não é mesmo? Também existe aquele preconceito de ser taxado de louco por se consultar com um psiquiatra, e pra completar aquele medo de ficar dependente das fatídicas tarjas pretas.

Para melhorar o pacote, a ansiedade tem uma coisa muito louca: muitas vezes ao pensar sobre o que você sente nas crises ou falar sobre as crises, você pode acabar ocasionando uma crise. Então amigos, bem-vindos ao inferno. Como falar ao médico de algo que te deixa doente ao falar sobre isso? Kind of hard.

Pessoas ansiosas geralmente adoram estar no controle da situação, e eu não sou diferente, óbvio. Perder o controle para mim é muito difícil e é exatamente isso que a ansiedade faz por mim, esse favorzão, me tira o controle sobre o meu corpo. Mas não no sentido de soltar a franga, ir pra galera e cair na gandaia. Nada disso. Ela causa na sua vida, te deixa incrivelmente desconfortável e doente. E quanto mais você diz para você mesmo que aquela sensação é uma bobagem, e que está tudo bem, adivinha? Mais ansioso você fica. Delícia! E tem gente que acha que ansiedade é frescura.

#masentãocomofaz

Depois de longo e tenebroso inverno, hoje, eu normalmente sei quando estou tendo uma crise de ansiedade, sei qual é o tratamento contínuo que devo fazer, e principalmente sei quando eu preciso utilizar uma medicação de resgate logo que percebo o início de uma crise. Saber disso é um bom começo e já é um grande alívio. Essa sabedoria toda eu devo muito à minha médica que desde a primeira consulta explicou com muita clareza o que é a tal da ansiedade e me ajudou a descobrir as causas das minhas crises.

As causas têm a ver com situações em que eu não me sinto no controle dos acontecimentos, como situações de medo, impotência ou onde enxergo risco à minha vida. Isso é diferente para cada pessoa, e o melhor profissional para ajudar a descobrir a causa da sua ansiedade é o seu médico. Por isso, se você acha que este pode ser o seu caso, não espere 5 anos pra admitir, como eu fiz, vá ao médico psiquiatra logo, os clínicos só vão te confundir, e não é culpa deles, eles simplesmente não podem te ajudar. Cada pessoa pode manifestar ansiedade de maneiras diferentes e em diferentes intensidades, mas não é o fim do mundo.

E de onde vem essa ansiedade patológica?

Nosso corpo nos coloca em estado de alerta em situações reais de perigo, ou seja quando você percebe conscientemente que existe alguma ameaça qualquer, seu corpo te prepara para a ‘batalha’. Sim, isso mesmo, como se você fosse partir 'pras vias de fato’. É uma reação primitiva pra caramba e automática. Hoje em dia nós pessoas típicas medianas, dificilmente partimos pras vias de fato, a não ser boxeadores, policiais, lutadores de jiu-jitsu, criminosos e afins, mas nosso corpitcho vem preparado, de fábrica, pra reagir e se preparar para esses combates sempre que necessário.
Beleza, mas se não tem ameaça, porque o corpo acha que tem? Aí que está o bug. O corpo muitas vezes não sabe que alguns dos nossos medos não são exatamente ameaças, e que algumas situações que nós consideramos de risco são parte do nosso estilo de vida urbano, estressante, intenso, suado, sofrido, cheio de pressões. E a interpretação do corpo para essas situações é equivocada. Você tem uma reação exagerada porque sua mente se preocupa demais com uma determinada situação. Aí que entram os medicamentos de controle, pra dar uma amenizada nestes tais bugs.

É bem provável que toda essa minha explicação tenha furos científicos 'de respeito’, mas uso a licença poética, e em linhas gerais e leigas é mais ou menos isso que acontece.

E o tratamento?

A ansiedade pode ser tratada com a psicoterapia, ou seja você pode fazer terapia com um especialista. E pode ser tratada com medicamento, que é a minha terapia. Existem medicamentos de controle que geralmente são os antidepressivos e os medicamentos de resgate que são os chamados ‘tranquilizantes’ ou ansiolíticos.

Há efeitos colaterais, óbvio, porque nessa vida nada é assim tão doce, mas são percebidos com maior frequência na fase de adaptação ao medicamento, ou seja no começo, nos primeiros meses. Eventualmente seu médico terá que fazer um ajuste de dose para te dar mais qualidade de vida ou adequar o medicamento ao efeito que você precisa.

Mas assim… a pessoa ansiosa é maluca?

Pra responder precisaríamos definir primeiro o que é normalidade. E aí ficaria mais fácil rankear o ansioso. Mas esse parâmetro é meio puxado pra utilizar. O que é possível afirmar é que o ansioso é de fato, ansioso mesmo. Se isso é loucura ou não eu não sei. Falo por mim e no geral eu vivo muito bem, obrigada. Minhas preocupações são tomar os remédios, não esquecer os remédios. Reduzir as crises e prevenir as crises.

A meu ver, reconhecer uma doença psicológica é um ato de humildade e amor próprio. Você precisa admitir que não dá conta sozinho e que quer melhorar. Não há nada de errado com isso. Eu era preconceituosa pra caramba com medicamentos psiquiátricos antes de precisar de um. Hoje eu acho que o pulo do gato está em usar só o que você realmente precisa e não criar uma muleta medicamentosa.

Outra questão é não forçar a amizade, ou seja, não achar que de um dia para o outro você está curado, simplesmente porque os sintomas não deram mais as caras. Ansiedade em muitos casos precisa de gatilho, e se você não acioná-los as chances de você não ter crises são grandes. Isso é uma faca de vários legumes porque o ansioso não curte ter crises, então é bem provável que ele fuja continuamente das situações que podem engatilhar uma crise, o que por sua vez também não é exatamente o ideal. Na prática, o único jeito de saber se os medicamentos estão funcionando é enfrentar as situações de gatilho, ou seja passar por elas. Não é nada fácil, eu sei bem, mas é o jeito de seguir a vida. A gente sobrevive. :)