Qual o problema com os movimentos pela Paz?

Que alma maligna criticaria pessoas e grupos que doam seu tempo, trabalham, suam, em prol de uma melhor humanidade? 
Após passar por diversos grupos que possuem essa proposta, vivendo alegrias e tristezas, trago uma visão dos problemas que percebi ser comum a todas.

Sou da teoria que as dificuldades existem quando suas polaridades não são integradas. Valendo para indivíduos, relacionamentos, famílias, países, etc. Os movimentos pela paz, com suas propostas de inclusão, não-violência, novo mundo, etc, acaba deixando na sombra diversos aspectos necessários a concretização de um novo mundo, sendo os principais:

  1. Agressividade
  2. Organizaçã
  3. Impossibilidade de demissão
  4. Dificuldade financeira

Agressividade: esse é o ponto mais importante. O recalque da agressividade vai gerar a “síndrome do bonzinho”, que aceita tudo, “gratidão universo”, vive na fantasia de incluir todo mundo, foge dos confrontos.

Entendo que o mundo já é muito agressivo, e acho válido experimentar novas formas. Mas quando a agressividade é excluída, acaba gerando o problema de não enfrentar o bom combate. Agir frente aos reais problemas da sociedade, correndo o risco de criar inimizades.

Dando nome aos bois, vejo que poucos movimentos pela paz enxergam os males do governo, o absurdo dos impostos, manipulação ideológica, etc.

Organização: como esses movimentos tendem a não ter fins lucrativos, a organização depende quase exclusivamente de voluntários. Apesar de acharmos lindo a ideia do voluntário, um trabalho altruísta, e possuir, de fato, um grande poder motivacional, quando o bicho aperta pra valer, voluntários irão correr riscos? O chefe pode mandar e desmandar? Para o voluntário, ser “demitido” não lhe soa aversivo, pois sua vida não depende dele. Como resolver essa questão?

Demissão: como “estamos sempre precisando de gente, e qualquer ajuda é válida”, vão surgir pessoas que não estão alinhadas, incompetentes, etc. Não digo que elas não possuem seu espaço no universo, mas que as vezes, podem mais atrapalhar do que contribuir.

Financeiro: se o mundo capitalista é malvado, predatório, excludente, etc, alguém lucrando por trazer a paz seria o cúmulo da incoerência. Consequência? Viver de migalhas, esperando doações. Enquanto a galera do bem está quebrada, políticos e mega corporações não tem problemas em comprar propagandas, prédios, consultorias.

Agora vamos para as soluções:

Os Movimentos pela Paz precisam entender que não é possível ser amigo de todo mundo, e principalmente do maior perpetrador de violência, mortes, depredação ambiental, prisões, deseducação que temos hoje: o Estado.

Se muitas instituições sobrevivem através do financiamento estatal, quem vai dar o tiro no pé? E quem apoiaria uma instituição que é contra o benevolente Estado?

A relação com o dinheiro precisa ser curada. Quando aceitarem que é OK lucrar e também ajudar o mundo, tudo vai mudar: não precisarão contar exclusivamente com trabalhos voluntários, logo poderão atrair pessoas muito mais competentes, com maior dedicação, e logo, cobrança de resultados.

Imagine grupos privados, com projetos realmente revolucionários, competindo com super-salários de empresas burocráticas e sem graça. Que lado atrairia as melhores pessoas? A geração X, que hoje tem 40–50 anos, foi seduzida por essa ideia, mas que que a geração Y não vai seguir, uma vez que ela necessita aliar sentido ao seu um trabalho, além do mero financeiro.

Pode-se argumentar que incentivar a paz não gera dinheiro suficiente, as pessoas não pagam por isso, etc. Por um lado, é verdade, por outro, bons marketeiros sabem que as pessoas torram dinheiro com coisas que acreditam. Na medida em que o mundo se torna mais rico, mais informado, e mais consciente, mais pessoas estão dispostas a consumir produtos sustentáveis, doar dinheiro, investir em cursos, auto-conhecimento, etc. O que falta mesmo são pessoas dispostas a se arriscar nesse mercado crescente.

Sim, pessoas que acreditam na Paz são um mercado…

Empresas são eficazes, crescem e são sustentáveis: investem em seleção, demitem quando necessário, amam o dinheiro, e sabem gerá-lo muito bem. Minha proposta: os movimentos pela paz precisam aprender com elas no que elas possuem de melhor. Isso não significa deixar de experimentar novos modelos, nem se perderem nos ideais de paz e mundo melhor.

Já foi-se o tempo dos movimentos pela paz serem administrados pela mentalidade hippie. Se queremos a paz, precisamos saber nos organizar, sair da síndrome do bonzinho, integrar a sombra, curando a relação com poder e dinheiro. Vivemos em um velho mundo, que passa por um momento de transição. É maravilhoso imaginar um novo mundo. Porém, ninguém cresce vivendo em fantasias, mas sim, encarando a realidade.

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