Formadores de opinião na minha terra de dinossauros

Até que se provem o contrário, sempre foi culturalmente delicioso ouvir ou ler as opiniões alheias. O meu primeiro contato com estas pessoas foi no salão de cabeleireiro do Sr. Oscar — meu pai. Então, lá estava eu sentado nas poltronas folheando compulsivamente uma página atrás de outras, a ponto de revisar diversas revistas, onde os assuntos vagavam por cabelos, beleza, estéticas, comportamentos, eventos, cultura e etc; havia também algumas páginas quentes nelas, principalmente as que ensinavam mulheres a serem mulheres, ou seja, em como elas poderiam ser melhores no lar, na cama, no trabalho, onde elas acreditassem que aquilo fosse alguma verdade, na época algumas eram fascinadas pelo domínio, obsessão (aquela mesma obsessão de tentar pegar o sabonete na banheira do Gugu). Já em outras revistas, os editorias inseriam receitas que aos meus olhos pareciam manuais com temas de fácil compreensão e engraçados para um garoto de dez anos, entre eles: “50 formas de se alcançar o orgasmo”, “100 mentiras ditas pelos homens”, “10 lugares imperdíveis à dois”, “Kama Sutra”, “O ponto G não é mistério”, “Masturbação e as preliminares” — Bem,acho que já deu para entender. Certo?

Entre meus novos e incontroláveis hormônios e breves excitações ao imaginar tudo aquilo que lia, ficava concentrado. Aos olhos do meu pai, eu era um garoto inteligente num nível estimável do qual eu não fazia a menor ideia, contudo era obediente, ou melhor, evitava problemas e se todas as revistas e jornais eram meus escudos, não via problemas em porque não utilizá-los. Afinal de contas, eu também não tinha lá muitas opções, havia apenas duas e, uma era varrer o salão, juntar todos os restos de cabelos que se espalhavam por cantos miseráveis e a outra, ficar lá quieto sentado e dê preferência lendo — óbvio, sempre optei pela mais conveniente, ler. Então, para um pequeno admirador de mulheres, eu ficava horas lendo todas aquelas colunas já que os repertórios eram vastos. Pois se era impossível conseguir minha primeira mulher, pelo menos eu tinha a oportunidade de estudá-las, conhecer e tentar compreender aquilo que elas desejavam emocionalmente, talvez isso iria me ajudar de alguma forma.

Já na contra mão, meu pai o roubador de brisas, surgia de repente pedindo para que eu fosse a esquina comprar algo para comer. Eu parava de ler, olhava para o meu pai e sem me dar tempo de abrir a boca para respondê-lo, ele falava: “Hey! Larga isso daí rapaz…?, “Hey! Ouviu? Ouviu o que eu lhe pedi…?” — eu apenas acenava a cabeça e saía vagarosamente, cruzando os extremos do salão. Neste grande desafio de ir até a lanchonete e fazer o tal pedido ao atendente que tinha uma fisionomia bastante parecida a dum brontossauro, falava sorrindo: “E aí garoto, filho do Oscar. O que manda?” e no caixa, havia um centrossauro junto aos demais estegossauros comentando sobre futebol, mulheres e alguns esquemas que envolviam dinheiro. Por fim, eu passava rapidamente entre todos eles, agradecia simultaneamente com um breve aceno de positivo e voltava correndo ao salão afim de tomar pose daquilo que era somente meu temporariamente.

E lá estava eu cagando e andando para os formuladores de opiniões e cagava muito mais por não fazer a menor ideia daquilo que acha que era somente uma pessoa escrevendo um coluna nas revistas multicoloridas do meu pai…Rs. Realmente… Essa terra de dinossauros é cômica.