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é sobre perder noites em claro, acordar de madrugada, e olhar para o teto — na verdade olhar para a total ausência de luz em um colchão de solteiro — ocupado — e tentar entender o que está acontecendo. o colchão está solteiro, eu estou ocupado, sempre soube que cabiam no máximo duas pessoas nele. se eu me deslocar para o teto, ou para o estrado do irônico treliche, e olhar para baixo, vejo perfeitamente duas pessoas, mas não estou entre elas. a insônia faz isso.
o afã em checar a tela do smartphone vira metáfora de uma ansiedade sufocada, entre o prazer discreto do desejo e a torrente de compromissos que aderimos às vezes de maneira acrítica. uma agenda às vezes nem tão nossa, cujo gargalo torna tão urgente quanto insuportável o pequeno gesto de pensar alto.
três peitos em convulsão, soam à maneira de uma bateria de carnaval. sambar a três, ademais, soa tão desafiador para quem tropegamente se preocupa em valsar a dois em paz, mantendo o passo: são dois pra lá, três pra cá. não estou acostumado com esse aperto singular, de asseverar o bem-estar com quem se ama e cuida, enquanto o gozo do plural expediente diuturno se deflagra cada vez mais patente. às vezes é um aperto que se dilata e distrai, conquanto o reflexo caleidoscópico dos olores e bigodes costura pelo tempo e pelo espaço o amor irresistível pela liberdade e pelo respeito.
não encontro o menor amparo no axioma ficcioso do indivíduo, uma sedução modernista inútil quando o sentimento explicita as fraturas de que são feitas as pessoas. reduzir as relações a operações básicas de aritmética há muito deixou de ser para mim uma prática interessante — ainda que vez ou outra esse repertório se imponha como um antídoto à loucura. antes, engatinho por lacunas, que se preenchem e deslocam, de bocas entretidas a nucas perfumadas, de braços que se envolvem e se devolvem, de olhos encantados em ziguezagues estrábicos, de conversas cortantes a confidências que escorrem pelos dedos.
eventualmente volto da borbulhante digressão que a matemática do desejo desconhece para o ocupado e solteiro colchão. olho para as sombras atrás das quais sei que há um teto, e ignoro o cômodo desserviço de exorcizar minhas bruxas — que se riem —, cultivando antes o recatado desejo pela existência de desafios que por ora simplesmente sonho. e é justamente nos sonhos que essa tarefa reflexiva se duplica, desta vez em cenários idílicos e realistas. ou senão, em um avesso anticlímax, no ambiente onírico que se instala quando estamos em três falando sobre a vida em um balcão de bar.

