_carta de um orientador socioeducativo com aquele velho tema anarquista

São Paulo, 2017.

Nos juntamos, éramos de diversas áreas, e estávamos construindo um projeto comum. Nos aglutinamos como voluntários para orientar projetos sociais que jovens rapazes e moças deviam elaborar e executar ao longo de um ano como contrapartida estabelecida para o recebimento regular de uma bolsa. Esta favoreceria a dedicação a um cursinho popular, sobretudo levando em consideração a origem humilde de seus beneficiários, pessoas em situação de vulnerabilidade social, conforme se diz.

Distribuímos os projetos entre nós. Os meus versavam sobre questão racial e vestibular e pessoas em situação de rua. Territórios: Cidade Tiradentes e São Mateus, respectivamente. Assim, falamos de uma política pública responsável por auxiliar a dedicação daqueles/as jovens à odisseia do vestibular e, assim, favorecer o acesso a espaços que, por crescerem em um país onde postos de poder sabidamente são ocupados em função das oportunidades de acesso a capital educacional, são vistos por grande parte deles/as como inacessíveis. O desenho institucional — a elaboração dos projetos sociais como contrapartida ao recebimento da bolsa — era executado à maneira de uma teia de responsabilidade social; ao cabo de um ano, além do ingresso de parte desses/as alunos/as em universidades públicas e programas como o PROUNI, uma série de projetos sociais teriam alcançado um público vulnerável maior (pessoas pobres, minorias, pessoas em situação de rua, animais de rua, crianças órfãs, pessoas de idade, comunidades afetadas pela má gestão ambiental, estudantes etc.).

Acontece que, com o vigente congelamento do orçamento público em São Paulo em diversas áreas de atuação política, o programa, chamado Bolsa Trabalho, foi cancelado sem sequer concluir o ciclo anual. Projetos que estavam em andamento se viram subitamente interrompidos, e nós orientadores/as socioeducativos/as vimos nosso trabalho simplesmente ser destituído de utilidade. Contudo, quem se fodeu mesmo foram os/as alunos/as, que haviam organizado um ano de estudos e gestão financeira em função de um contrato imoralmente reincidido. Foram atraídos por um prêmio, e muitos sairão endividados de lá.

Até agora não consigo esquecer a tarde em que demos a notícia para eles/as e alguns/umas pais/mães. Houve muita indignação em torno da decisão, mas para mim o grande destaque foi a atmosfera de tristeza que se espalhou pela plateia daquele anfiteatro. Sugerimos, após a reunião, que eles/as se organizassem em torno da notícia para eventuais mobilizações político-institucionais. Após essa reunião, cada orientador/a voltaria a se encontrar com os grupos cujos projetos estavam direcionando. Encontrei os meus.

Formei uma roda em algum lugar, sentei no chão e olhei para cada um daqueles doze rostos desolados. E disse o seguinte: o que esses políticos fazem quando, de maneira inescrupulosa e irresponsável, cancelam esse benefício social de vocês na metade do processo, é dizer para vocês: vocês não têm direito à universidade, ao conhecimento, a serem ouvidos. Eles querem que vocês percam a esperança na mobilidade social, percam a auto-estima, sintam-se não representados, desistam de seus sonhos. Ao cortar a bolsa, eles querem desestimular vocês. Então o que eu peço a vocês é que não deixem esses caras tirarem aquilo que é direito de vocês. Subversivo mesmo é estudar, provar para eles que vocês têm condições de acessar a universidade pública, fazer o ENEM, conseguir o PROUNI, ocupar postos de poder e se tornarem vozes dissonantes. Vocês não têm um motivo a menos para estudar, vocês têm um motivo a mais, pois

Conhecimento não se compra! Se toma!

Agora não sabemos para onde esses trabalhos vão, se é que teremos todos/as fôlego para continuar um mês sequer sob o impacto dessa diretiva imoral e espúria. Dependemos da força, do ímpeto e do sonho desses/as jovens. A julgar pela forma como eles/as têm se mobilizado nas redes sociais e espaços institucionais, haverá luta! Uma luta por pluralismo e conhecimento! O desmonte da educação e da cultura não há de desmontar seus sonhos e expectativas.