_o swing gay é possível?

Woman in sundress, de Cindy Sherman, 2003.
Fotografia retrata a hipersexualidade mórbida de estereótipos machistas.

Swing é um esporte sexual hétero.

Se você pesquisa swing gay conto no Google, as peripécias gays e bissexuais que são realizadas nas narrativas são relatadas por um dos membros de um casal heterossexual. Meu marido comeu um gay, Uma travesti comeu meu marido etc. etc. etc.

O desejo de ser ou sentir-se corno é igualmente heterossexual.

Basicamente a primeira página referente à pesquisa corno gay conto está lotada de maridos que viraram cornos e viados no mesmo dia. Para virar corno, você precisa ser casado. Para virar viado, heterossexual.

No campo do desejo, parece que os gays continuam alheios ao manejo da conjugalidade como repertório erótico — com a clara exceção da relação com a conjugalidade dos heterossexuais com quem se relacionam (o primo, o tio, o namorado da fulana, o bróder da faculdade). Se você pesquisa comeu meu namorado conto gay no Google, existe apenas um conto que aparece na primeira página que muito estranhamente pode ser chamado de gay, já que um de seus protagonistas é hétero. Os demais contos para essas keywords seguem sendo héteros: Estuprei meu namorado, Meu namorado é gay, Comeram meu marido, Meu namorado comeu eu e meu amigo gay, não à toa escritos na primeira pessoa por mulheres, que certamente são homens fantasiando — explorar os limites entre conjugalidade e orientação sexual a uma só vez é uma tarefa que envolve bastante fôlego social.

O conto em questão, O vizinho hetero comeu meu namorado, de Maumau, é uma pérola. Em que pese o altíssimo grau de violência homofóbica agenciada pela narrativa do desejo (ou desejo da narrativa), existem cenas primorosas. A minha predileta é quando o Paulão come o André na frente do marido deste, o Maurício. Triste é chamarem para a cena um homem heterossexual extremamente rude e homofóbico — como se a dominação à brasileira justificasse o swing. Contudo, ele faz algo que é bastante excitante, que é comer um dos homens do casal, enquanto o outro assiste, comenta, ajuda etc.

Mas… Paulão não poderia ser um amigo gay do casal? Um affair? Aliás, por que apenas um Paulão-com-nome, por que apenas uma história de terceiro elemento dentro de um universo pornô-representacional gigante, tão vasto de orgias, surubas, threesomes e ménages e gang bangs gays? Porque terceiros elementos não são excitantes?

Porque a conjugalidade entre gays não é erotizada!

Isso é um lado rico da nossa herança anti-familial, emancipação, #GozarForaDoSistema! Contudo, é um direito no campo do desejo que não exercitamos, e isso não é gratuito. Paulão trata o casal André-Maurício como lixo, e isto está justificado na narrativa de dominação. Todavia, quando é que o Paulo, o Paulinho, não o Paulão, o Paulinho mesmo, que namora o Beto, será convidado para um sexo respeitoso e cúmplice com André e Maurício? Quando leremos na sessão de contos gays um relato como o de Rafaela em Levando rola do amigo do meu namorado, (conto de Menina Curiosa)?

Fiquei maravilhada com o tamanho dos cacetes no vídeo, e meu namorado perguntou o que eu mais tinha gostado no vídeo. Fiquei sem graça, mas acabei respondendo que tinha adorado ver aquelas pirocas enormes. Ao ouvir isso, ele rapidamente gozou. E percebi que ele tinha gozado muito gostoso mesmo. Fiquei com aquilo na cabeça, e em todas as nossas transas acontecia dele me perguntar de outros homens, até chegarmos ao ponto de imaginarmos outro na nossa cama. Eu já havia percebido o desejo dele em me ver sendo comida por outro homem, mas nunca imaginamos seguir em frente. Até que certo dia, nós brigamos e acabamos terminando, e ele foi viajar com o seu melhor amigo, o Júnior. Durante essa viagem, comecei a receber mensagens do Júnior, dando em cima de mim. Não dei corda por saber da relação dele com o Marcelo. No entanto, o Júnior me contou que o Marcelo havia revelado que tinha desejo de me dividir na cama. Aquela situação me deixou excitada, e logo o Júnior já estava falando putaria comigo nas mensagens. Na volta da viagem, acabei voltando a namorar com o Marcelo, e então decidimos convidar o Júnior para realizar nosso desejo. Marcamos de nos encontrar na casa do Júnior. Puxa vida!!! Eu estava muito nervosa na hora, e meu namorado mais ainda.

Não preciso dizer que o sexo foi muito bom.

Há de se pontuar que Júnior não é uma pessoa qualquer que se conheceu em um aplicativo de celular numa noite entediada; Júnior é nada mais nada menos que o melhor amigo de Marcelo. Houve muita cumplicidade em jogo aquela noite.

Enfim… Héteros têm tesão com traição, nós não temos. Não temos direito a ter tesão com traição porque nossas referências culturais-eróticas relacionam (extra)conjugalidade a heterossexualidade — e homossexualidade a expedientes impessoais, não-conjugais etc. Casais gays se traem, mas não têm tesão nisso. Casais gays não têm tesão em verem seus parceiros fazendo sexo com um terceiro elemento que seja um amigo-affair, nem tesão em swing. E a única narrativa-de-primeira-página-de-pesquisa que é de fato um conto sobre alguém que comeu meu namorado, não fala da relação entre gays, mas entre gays e um homem hétero. Héteros só fazem sexo com gays ocasionalmente, quando estão na seca, e não dividem uma série de referências culturais e eróticas, não sendo, logo, affairs em potencial.

Eu uso esse tom generalista para falar do universo pornô-representacional que salta das primeiras páginas de pesquisa dos temas supracitados — eu pesquiso swing gay e acho swing hétero, WTF! Eu vivo com gente de carne e osso que pensa densamente poliamor, relacionamentos abertos, amor livre etc. Contudo, os dilemas certamente estão relacionados com essa socialização relacionada a gênero e orientação sexual. Tenho muitos amigos gays que jamais erotizariam a traição ou o amigo do casal, mas erotizam os homens heterossexuais e, quando muito, o terceiro elemento casual, não o affair, não o amigo, mas aquele cara que fará uma intervenção muito pontual numa noite regada a Catuaba — o tal do threesome.

Aqueles amigos que admitem e exercitam conscientemente a abertura das relações em seus namoros com frequência esbarram em convenções que são antídotos à empatia e à afeição. Não acredito que namoros são tão permeáveis quanto os fantasmas que criamos dos terceiros elementos nos fazem supor. Ao mesmo tempo que muitos de nós possui um afã integrista em criar relações em par, conjugais, baunilha etc., parece insuportável que os limites tematizados nos contos heterossexuais de swing sejam trasladados para o lado pink da força.

Trair, para quem é socializado a se acostumar com o sexo seriado, escondido, culpado, é fácil. Difícil, subversivo, é, na contramão de um conjunto hegemônico de referências pornô-representacionais que insistem na casualidade e na suruba, restaurar o afeto, e o afeto extra-conjugal, como elementos de um erotismo saudável e sem culpa.

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