Família, desiquilíbrio, cana

Em todas as famílias, tem algum que é meio doido, cachaceiro, fracassado, ou tudo junto. Eu tenho um tio assim, maluco de pedra. É um cara tão inteligente, tem um ótimo cargo nos correios há muitos anos, quase aposentado, mas ainda mora de aluguel, nunca conseguiu comprar sua casa. Vez por outra se ouve dizer que alguém precisou emprestar uma grana pra ele, sem esperanças de ver esse dinheiro de volta. A receita disso é: junte uma esposa louca, filhos que não estão nem ai e cachaça, muita cachaça. Resultado disso é um show de dancinhas ao som dos maiores nomes do brega, ostentação de chamar um táxi para ir de uma rua à outra num percurso de 100 metros, e dizer pro chofer esperar com o taxímetro rodando, e uma vontade de dar dinheiro para desconhecidos que deixaria Silvio Santos com inveja.

Você não conhece meu tio, Silvio!

Fazia algum tempo que não tinha notícias dele causando por ai, até que um primo meu postou no whatsapp dois vídeos dele na porta de um buteco dançando ridiculamente, dava um bom vídeo daqueles de zuera (gosto de escrever zuera, ao invés de zoeira) que a molecada manda nos grupos. Quase caindo de tanta cachaça. Cerveja. Bombeirinho. E caipirinha. Ao som de Aviões do Forró.

Alguém ainda bebe bombeirinho? Nunca mais vi.

O caso é que, muito antes de começar a julgar meu tio por ele ser doido, me veio a mente a minha própria vida. Tudo que aconteceu nesses 32 anos e as coisas que deram erradas, que foi quase tudo. A forma com a qual aconteceu meu desemprego (um dia quem sabe esta história terá um post) tudo que aconteceu depois, que já era algo que já acontecia, os problemas, uma coisa tão normal que faz com que você tome atitudes prejudiciais pra sua vida, e ai você se toca e olha pra si e diz ‘porra, que merda que eu ando fazendo’ e sente o vazio de não ter construído nada. Começo a pensar nos meus pais, eu devia dar orgulho para eles, e no entanto o máximo que consigo dar é dor de cabeça, as vezes sinto que meu pai pensa ‘onde eu errei com esse moleque?’ quando me vê assistindo NCIS deitado no sofá que já tem até minhas formas.

Ziva, depois dessa temporada juro que vou procurar trampo

A gente vê os outros julgando o cara por causa disso ou daquilo, botando a culpa nesse ou naquele, mas a verdade é que, como diz o grande Brown, cada um é cada um, mas ninguém sabe da cabeça de ninguém, das limitações de ninguém e nem das coisas que acabam sendo mais fortes que a própria pessoa. E por mais que queiram ajudar, pela ignorância, ou mesmo por não saber conversar, acabam que atrapalham mais. E esse é um problema que, você percebe no final, é só você que pode resolver com você mesmo. E encontrar você mesmo é a tarefa mais difícil para o ser humano. Ai não tem Deus, não tem psicologia nem psiquiatria (os três ajudam, mas podem complicar…) que faça você ter a paz consigo mesmo a ponto de recomeçar a fazer as coisas direito.

Por isso eu digo: Tio, tamo junto!

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