Por muitos meses eu tive uma falsa sensação de liberdade.

A possibilidade de fazer o que eu bem entendesse sem ter que te dar nenhuma satisfação. De chegar na hora em que eu queria, tarde da noite ou no meio da madrugada me manteve animada. Ou talvez de nem chegar também, bastou por algum tempo.

Mas ali, a 30km de distância de você, na casa que nós sonhamos e compramos para construir a nossa família, eu me sentia presa.

Presa a lembranças em cada passo. Encontrando coisas que você deixou pra trás. Coisas que você me deu, que eu te dei e você não levou. Memórias, sensações, cheiros. Tudo naquela casa me lembrava você e me manteve presa nas minhas recordações.

Demorei, mas mudei. Troquei o conforto da minha casa por um apartamento pequeno, com um custo baixo. Abri mão de muitas daquelas velhas coisas. Joguei boa parte delas no lixo, outras tantas deixei em uma caixa no chão com o seu nome.

Cartas, cartões de aniversário, presentes, aquele DVD bobo com bandas de rock que só você gostava. A primeira aliança que você me deu, a foto 3x4 desbotada que eu carreguei na carteira por 8 anos. O conjunto de brincos e colar que você me deu no dia em que nasceu o nosso segundo filho, deixei lá naquela caixa de memórias.

Hoje, 10 meses depois, sentada atrás das grades da pequena varanda do meu apartamento, olhando pra janela do seu quarto a menos de 50mt de mim, eu me sinto finalmente livre.