Talvez (falo talvez só pra abranger mais pessoas, mas na minha opinião é uma certeza), RuPaul seja a personalidade pop mais importante na sociedade nos últimos 10 anos. Claro que eu sei que RuPaul existe como entidade artística há mais de 30 anos, mas desde que a internet começou a criar e moldar consumo e comportamento, não consigo pensar em mais ninguém que tenha uma representatividade e relevância igual a dela.

RuPaul’s Drag Race foi criado em 2009. Eu lembro a primeira vez que dei de cara com o reality. Foi no VH1. Achei engraçado, na época drag pra mim era só uma caricatura engraçada. Não decorei o nome, não decorei a cara das drags e o tempo passou. Anos depois eu vi que o programa entrou no Netflix (Que, aliás, foi um dos responsáveis por jogar luz no trabalho da RuPaul) e decidi assistir ao piloto. Foi ali que entendi o que é ser drag.

Drag é acima de tudo um ato artístico e político. Ficou claro pra mim naquele primeiro episódio. Como assim existem vários tipos de drag? Como assim existem drags carecas (Ongina)? Drags que representam uma cultura e contam uma história através de um look (Bebe Zaharra Bennet)? Claro que isso tudo é uma construção que tá aí há décadas, e eu na minha ignorância, que tenho certeza é compartilhada por muitas pessoas que desconheciam todo o potencial desse tipo de arte, não entendia as camadas do “ser drag”.

Bom, a questão é que RuPaul é um puta empresário, apresentador e… DRAG QUEEN. RuPaul foi e é referência underground do cenário drag desde a década de 80. Então é muito bacana ver jovens hoje em dia se inspirando em sua história para escrever outras completamente diferentes, pessoais, que expressem não só o momento atual de grupos sociais, mas também a individualidade.

Continuei assistindo RuPaul’s Drag Race e vi artistas incríveis virarem ídolos (inclusive meus), lotarem shows, levantarem bandeiras, eu vi um momento de expressão LIBERTADOR nascer nesses últimos anos, vi um programa onde escolhe a melhor Drag Queen da temporada ganhar um Emmy. Vi meninos e meninas manifestarem opiniões e lutarem por um espaço social e político armados com maquiagem, saltos, perucas, roupas, fantasias, performances… Graças a RuPaul.

Acho sim que RuPaul é a personalidade da década. Uma Drag Queen CRIOU uma geração que usa o entretenimento como munição contra o preconceito, contra barreiras sociais, políticas, de gênero, de classe. Mais que uma cantora pop, um político, um papa, um jogador de futebol… RuPaul mostrou e continua mostrando que VOCÊ pode mudar o mundo através do que você tem a oferecer. Ela é um condutor dessa força, mas VOCÊ e seu carisma, singularidade, coragem e talento que pode contribuir para uma sociedade mais igualitária em toda sua diversidade.

“We’re all born naked and the rest is drag”