Cetim

Não mais creio naquele que cria
Amo ainda menos o que crê
Adoro somente a pequena que ria
Que ria, que via, que vê

Amargaram meus anos o canto da boca
Sei que estou por ir
Uma hora ou outra,
Mas todos se vão
Se vão e deixam somente um gosto na boca
Doce, agridoce, amargo que seja
Estou farto de gostos na boca

E a pequena? A pequena inveja
Mas por quê?
Isso não sei dizer
O descaso para vida negou-me este esclarecer
Mas dança, pequena
Dança, pois não há maior alegria que o frevo
O baile que alegra a alma
Como se fosse o doce do beijo

Para mim o frevo acabou
Sobraram somente retalhos de cetim
Cetim!

Por fim acaba meu eu
Torna cinza a vida que já floresceu
Corrói meus dados o fraco desejo
Queria pôr outra vez a fantasia
A fantasia que cria, que Chica me deu

Por que não pôr?
Se meus dias se esgotam
Que eu faça um último frevo
Mesmo ainda em Janeiro

Visto a cria de Chica
Visto como cria minha
Ó, doce cetim
Amo-te como amo alecrim

Agora que nasce frevo em mim
Já vejo a pequena ao longe
Tão longe que o grito não chega
Mas grito, ergo o braço e grito
Aceno mesmo que seja para o vento
“Adeus, ó pequena”
“Adeus”
Mas ela se foi
E eu?

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