Fio de sobrancelha

Eryck Magalhães
Aug 9, 2017 · 3 min read

Vi, logo de manhã, no espelho do banheiro, meu tio pendurado no fio de minha sobrancelha. Fiquei pasmo. Abri a torneira da pia, joguei água no rosto, limpei os olhos — a vista ainda um pouco ofuscada pelas horas dormidas — , e olhei novamente. Era ele mesmo. O fio, um pouco mais longo que os demais, sobressaltava bem acima do olho esquerdo. Exatamente como era o do meu tio.

Ele poderia ter arrancado aquele fio mas creio que nunca fez isso. Meu tio era um homem sábio e aceitava a sua natureza. A verdade é que ele sentia muito orgulho daquele fio e vivia exibindo-o para mim. Quando ele o puxava para baixo, praticamente atingia sua bochecha. Com 12 anos, eu achava que aquilo dava a meu tio um aspecto de bruxo. Às vezes, tinha quase certeza de que ele não era mesmo um ser humano comum. Ele, de vez em quando, ficava com o olhar perdido, falava coisas que eu não entendia muito bem e fazia previsões. Certa vez, me disse: “cuidado com essa bicicleta quando estiver descendo aquele morro na volta pra casa”.

Achei que o comentário dele não era nada de mais, porém, ao descer o morro, a corrente da bicicleta arrebentou e entrou nos raios, travando a roda. Esborrachei-me no chão e ganhei uma baita de uma esfoladura no joelho.

Talvez não tenha sido uma premonição. Sou cético e prefiro acreditar que ele era um exímio observador de detalhes. Mas ele tinha um quê de especial, um olhar decifrador que parecia entrar nas pessoas. Confesso que, uma vez ou outra, sentia até um certo desconforto, pois tinha a impressão de que ele lia meus pensamentos. E não foram raras as vezes em que ele completava em voz alta exatamente o que ia passando pela minha cabeça. Certamente havia um imã entre nós.

Passávamos a maior parte do tempo na varanda, sentados, dialogando, mesmo quando estávamos em silêncio. Uma vez, ele me disse que queria morar em Ilha Bela, recomeçar a vida lá, montar uma oficina mecânica e que, quando eu tivesse 18 anos, eu poderia ir morar com ele. Ele só precisava de um pouco mais de tempo para se recuperar totalmente da cirrose.

Aquele tio, que até então eu havia visto só uma vez na vida, veio morar com minha avó e, após 9 meses, havia se tornado para mim a pessoa mais interessante e importante do mundo. A primeira vez que eu o vi foi no velório de uma prima que morreu aos 2 aninhos apenas, por problemas do coração. Alíás, eu também era bem pequeno na época e, não sei o porquê, me enfiei embaixo da mesa sobre a qual estava o caixão e vi a única imagem que tinha do meu tio, suas longas pernas de adulto, revestidas por calças pretas, se movimentando pela sala. Vi também os seus sapatos pretos muitíssimo bem engraxados. Essa era a única imagem que tinha de meu tio, antes de conviver com ele. Não havia nem sequer visto seu rosto porque ele não demorou muito e não ficou para o enterro.

Como eu disse no início, ele parecia ter aptidões de vidente. Entretanto não previu ou talvez não quis revelar uma manhã até certo ponto comum, em que eu me levantei e fui ao banheiro para me arrumar para a escola. Senti um cheiro acre de sangue, muito forte, logo assim que entrei no cômodo. Havia algumas manchas vermelhas no branco tanto do piso quanto do azulejo. Havia também muito sangue dentro do vaso sanitário. Voltei para o quarto assustado, e meu tio me disse que não estava se sentindo bem. Ele estava deitado na cama. Eu quis chamar minha avó, mas ele insistiu para que eu não o fizesse. Fui para a escola assim como ele me pediu. Quando voltei, já no horário do almoço, uma ambulância estava em frente a casa. Entrei rapidamente e dois homens de branco carregavam meu tio pela sala. Ele olhou bem nos meus olhos e me disse que não era nada e que logo estaria de volta. Queria me poupar, hoje eu sei. Nunca mais voltou. Não voltou porque nunca foi. Ficou comigo e agora está aqui, pendurado no fio de minha sobrancelha.

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