T de transcendente

Universidade oferece ambiente mais receptivo, mas ainda assim alunos transexuais enfrentam preconceito no ambiente acadêmico

A comunidade T, como é carinhosamente apelidada o grupo de transexuais e travestis, passa sua vida enfrentando dificuldades. Primeiramente, por se descobrir diferente da maioria, e tendo que passar a infância e grande parte da adolescência sendo subjulgado pela família, colegas e até professores. Natalia Becher, estudante de medicina em Vitória (ES), nasceu em uma cidade do interior e percebeu sua incoerência com o gênero ainda bem nova: “todos me cobravam um comportamento que não condiziam em nada com minha realidade. Então fiz o que as crianças fazem: tentei me adaptar às expectativas deles”. Segunda ela, uma criança não tem condições de enfrentar opressões de adultos e acaba por se calar. “Essa emolução de menino me detonava, mas todas as vezes que tentei externar quem eu era, eles agiam com violência”, desabafa.

Quando finalmente conseguem se assumir, o preconceito aparece de forma clara. A estudante de serviço social da Universidade Anhanguera de Brasília, Daniela Nunes, revela que tem dificuldades desde um simples tratamento pelo pronome feminino e que até atividades cotidianas se tornam um desafio para quem é transexual: “O tempo todo tenho minha existência negada. Sempre é uma conquista até as coisas mais simples do dia-a-dia, como comprar um pão ou pagar as próprias contas, tendo que lidar com reprovações das pessoas em tempo integral, para uma assunto que não lhes dizem respeito”.

Muitos jovens trans só conseguem se empoderar e revelar sua escolha quando entram na universidade, que é quando têm contato com pessoas parecidas com eles. É o caso de Miguel Haru, estudante de nutrição da UnB: “A UnB é um ambiente relativamente aberto. Quando descobri o que se passava [comigo], estava trabalhando em um projeto da Universidade de saúde LGBT. Sempre soube que era menino, mas não sabia que podia ser. Tive muita sorte”. Ariel Pimenta, caloura de artes cênicas na UnB, conta que também teve uma experiência, no geral, positiva durante seu primeiro semestre: “Devo admitir que as pessoas do meu departamento e da UnB como um todo têm me tratado muito bem e me recebido com muito carinho”.

Ariel relata que uma das coisas que ajudou muito foi a possibilidade de solicitar, ainda na matrícula, seu nome social, fazendo com que na chamada e carteirinha constasse seu verdadeiro nome.

Porém, situações de transfobia, mesmo que em menor escala, ainda perduram no cotidiano dos estudantes. Daniela Nunes relata que teve muita dificuldade com o uso do seu nome social, mesmo estudando um curso de serviço social: “para as pessoas na universidade, de um modo geral, foi um susto. Não estão tão acostumados a verem ou perceberem uma pessoa trans dividindo os mesmo espaços acadêmicos”. Nathalia Becher se disse surpresa pela recepção dos colegas: “com relação à intolerância, fiquei bem chateada ao ver que uma faculdade, que deveria ser com pessoas mais conscientes, tinha também tanto o preconceito quanto o mundo lá fora”.

Segundo uma resolução do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT), órgão vinculado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, é garantido aos estudantes transgêneros o direito de escolha se vão usar o banheiro masculino ou feminino, em qualquer instituição educacional. Essa resolução não tem força de lei, mas é uma recomendação. Ainda assim, os universitários passam constrangimento ao utilizar o banheiro, como conta Ariel Pimenta: “Houve episódios em que amiga minha foi expulsa do banheiro feminino, passando por um momento de humilhação muito grande, e não foi nem uma nem duas vezes (só esse semestre)”. Ariel atribui isso à falta de preparo dos funcionários da UnB.

O medo é uma constante na vida dos transexuais e travestis. Não só o medo de situações embaraçosas, mas também o temor real de ser agredido e até morto na rua, ou dentro de qualquer banheiro. Miguel Hara conta com tristeza: “Tenho medo de voltar para casa todo quebrado. Posso apanhar porque existo. Não é fácil”. Sobre o preconceito, Daniela Nunes resume sua consternação: “Não estou pedindo para existir. Eu existo dessa forma e pronto”. Em 2015, segundo relatório anual divulgado pelo GGB (Grupo gay da Bahia) — mais antiga entidade do gênero no Brasil -, 318 pessoas LGBT foram mortas no país.

De um jeito ou de outro, as dificuldades encontradas pela comunidade T são constantemente superadas por essas pessoas que, de tão fortes e determinadas, deveriam se considerar transcendentes. Não porque são diferentes em questão de gênero, mas porque são capazes de transcender de uma realidade dura e preconceituosa, imposta por uma sociedade ignorante que segue padrões arcaicos e ainda tem muito a aprender, para uma realidade de amor e orgulho por serem exatamente do jeito que são.

Carol Pimenta está feliz em seu primeiro semestra na UnB

Cirurgia pelo SUS

O desejo de muitas pessoas trans é fazer a cirurgia de resignação social. Esse procedimento, mais conhecido por “troca de sexo”, é realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde desde a publicação da Portaria Nº 457, de agosto de 2008. Até então o único procedimento era o male-to-female, onde há a retirada do pênis e a contrução de uma “neovagina”.

Em novembro de 2013, o Ministério da Saúde, por meio da Portaria n° 2.803, ampliou o processo transexualizador no SUS, aumentando o número de procedimentos ambulatoriais e hospitalares e incluindo procedimentos para redesignação sexual male-to-female, onde há a retirada das mamas, útero e ovários.

Para conseguir e cirurgia, o candidato deve atender diversos requisitos: ter no mínimo 21 anos, acompanhamento psicoterápico por pelo menos dois anos, laudo psicológico/psiquiátrico favorável e diagnóstico de transexualidade. O tratamento hormonal pode ser feito a partir dos 18.

Miguel Hara está tomando hormônios há sete meses e se diz ansioso pela cirurgia: “Me sinto imerso na urgência da mamoplastia, porque essa parte me incomoda absurdamente”. Atualmente, cinco hospitais no Brasil fazem esse procedimento pelo SUS (ver infográfico).

Apoio e pesquisa

Na UnB, existe o Programa para Transexuais, que ocorre no HUB (Hospital Universitário de Brasília). Ele oferece acolhimento, psicoterapia, apoio psicológico, orientação e emissão de laudos. As reuniões são realizadas às terças-feiras, das oito às dez, no ambulatório do HUB.

A ONG Elos também atua nesse sentido, dando apoio e promovendo encontros. Ela segue com ações e atividades a fim de políticas públicas afirmativas e efetivas à população LGBT no âmbito do Distrito Federal e região do entorno. Seu email de contato é elos@eloslgbt.org.br.

Quem se interessar pelo tema, pode procurar o projeto “Saúde LGBT”, um grupo de pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos em Saúde Pública da Universidade de Brasília (Nesp/UnB) em parceria com a FIOCRUZ/PE, as Universidades Federais da Paraíba, Piauí, Uberlândia; Universidade de São Paulo; Universidades Estaduais de Maringá e do Rio de Janeiro. Eles fazem análise do acesso e da qualidade da atenção integral à saúde da população LGBT no SUS, segundo informações do seu site (http://www.nesp.unb.br/saudelgbt).

Confira a entrevista de Ariel Pimenta na integra:

Me conte um pouco de sua história.

Meu nome é Ariel Pimenta Amaral, sou uma mulher trans. Assumi minha transexualidade publicamente ( redes sociais e etc ) em novembro de 2015! Comecei meu tratamento hormonal, tambem em novembro de 2015! Tenho total aceitação e respeito da minha familia ( formada por 16 tios, 10 deles sendo homens ). Tenho uma vida que pode ser considerada privilegiada se comparada a vida de outras pessoas trans!

Quantos anos você tinha quando engressou na universidade?

Entrei na faculdade com 20 anos!

O que cursas?

Artes Cenicas-UNB

Como foi o primeiro semestre?

O primeiro semestre esta sendo incrivel, tirando o fato de ser muito corrido! Porem devo admitir que as pessoas do meu departamento e ate mesmo da unb como um todo, tem me tratado muito bem e tem me recebido com muito carinho e respeito! Ate o momento nao passei por nenhum constrangimento, ou episódio de transfobia ou qualquer tipo de discriminação ! Confesso que muito foi ajudado pela própria UNB quando a mesma no dia da minha matricula me permitiu solicitar o meu nome social, fazendo assim que na chamada, matricula e na carteirinha, eu ja estivesse identifica com o meu nome social!

Você sofreu preconceito em algum momento?

Ate o momento minha vivência na unb tem sido muito tranquila! Porem creio que isso se deva a uma passabilidade cis, que meus amigos e familiares dizem que eu possuo, fazendo assim que eu passe despercebida entre os outros! Mas devo admitir que o despreparo dos funcionários da UNB para com alunos transgeneros é GRITANTE! Houve episodios em que amiga minha foi expulsa do banheiro feminino, passando por um momento de constrangimento e humilhação muito grande, e nao foi uma nem duas vezes ( só esse semestre ). Chega a ser assassino pensar, que para se ter uma vida normal dentro de seu meio de convívio social, voce precise de uma passabilidade cis, para que vc nao sofra esse tipo de constrangimento. Falando da minha vivência em particular, dentro da UNB, eu nao posso reclamar ate o momento, porém seria hipocrisia se eu dissesse que a faculdade tem preparo e entendimento para com alunos transgeneros! Porque NAO tem!
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