Beijos paralelos

Ele não sabia como era ser sugado por um redemoinho e ser puxado até o ponto de não conseguir ver mais a superfície. Mas ele tinha certeza que era assim que ele descreveria o que sentia por ela.

A primeira vez que ele a viu, ele tinha certeza que aquela garota iria ocupar os pensamentos dele mais do que ele gostaria. Eles estavam em uma festa na casa de um amigo em comum e nunca tinham se visto. Foi ela que iniciou a conversa com um sorriso e um ei, você parece ser legal, qual o seu nome?. Não foi o elogio ou o interesse dela em saber seu nome que deu aquele frio na barriga dele. Foi a combinação de toda a situação.

Vamos com calma, porque foi aquele momento que fez ele se sentir agradecido por pertencer àquela timeline.

Eu não vou descrever alguns detalhes da aparência dela, porque eles realmente não importam. Por mais que eles sejam relevantes em qualquer história de amor, ele não estava nem aí para a cor do cabelo ou os olhos de seus amores. Ele queria sentir o corpo de quem ele gostava transbordando suas próprias personalidades. E isso, ela conseguia fazer de sobra desde a primeira vez que eles se viram.

Até mesmo contra sua vontade, alguns detalhes ele nunca conseguiu esquecer. A mão esquerda dela no ombro dele enquanto perguntava seu nome. A mão direita segurando um cigarro entre os dedos anelar e médio, uma combinação que fez ele começar a olhar para a mão de todos os fumantes pro resto de sua vida. Um pequeno Squirtle de óculos escuros tatuado no ombro esquerdo. Um sorriso lindo com alguns dentes um pouco tortinhos, que revelavam que ela nunca tinha usado aparelho.

Eles se beijaram naquele dia. Não havia música. Eles não estavam completamente sozinhos. Era o pior lugar possível para um primeiro beijo. E é por isso que aquele sempre foi seu favorito: por ter sido tão simples. Tão bom.

Ele sempre acreditava que beijos de verdade eram raros e, se você parar para pensar, é fácil de concordar. Quantas vezes você beijou alguém em uma situação genuinamente romântica? A maioria dos beijos são dados em festas, batizados com álcool e esquecidos no chão de noites anteriores antes de serem varridos para sempre de nossas vidas. O beijo que eles deram era o oposto: era uma recordação. Uma das mais valiosas.

Tempo não é o conceito ideal para definir o quanto os dois ficaram juntos. Uma semana na vida de um casal como eles poderia ser comparado com um ano na vida de muitos outros casais. Então, como definir quanto o amor deles durou? Eles ficaram uma boa quantidade de beijos juntos. Uma boa quantidade de carinhos na cama antes de dormir. Uma quantidade ainda maior de carinhos depois de acordar.

Como nem todas as histórias tem finais felizes, tenho a obrigação de adiantar que essa também não tem. O tempo passou e os carinhos diminuíram. A quantidade de beijos também. Diminuiu tanto, até o momento em que chegou ao último.

Ela estava na frente dele. Sua mão esquerda não estava em seu ombro. Sua mão direita não segurava cigarro algum. A tatuagem de Squirtle se escondia embaixo da alça do sutiã. O sorriso se escondia atrás de um semblante de despedida. Os dois estavam se olhando no aeroporto. Não havia música. Não estavam sozinhos.

Foi bom, foi o que ela disse, dando um beijo na bochecha dele.

Foi bom, foi o que ele pensou.

E continuou pensando.

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