por Stephan Harding

(Esse artigo foi traduzido por Flavia Bueno e revisado por Luiz Gabriel Vasconcelos. Ele foi publicado originalmente no site da Schumacher College.

Recentemente, fui perguntado algumas vezes se Gaia nos enviou o Coronavírus (COVID-19) por alguma razão ou propósito seus.

Minha primeira resposta é reformular a pergunta como uma questão científica, pois assim permaneço na minha zona de conforto e ainda tenho informações a oferecer.

Do ponto de vista científico, o vírus pode ser visto como o resultado inevitável da chamada "conexão excessiva".

Os ecologistas científicos estudaram a estrutura das redes alimentares na natureza e descobriram que em conexões mais resistentes, cada espécie se alimenta um pouco de diversos tipos de suas presas, enquanto se alimenta fortemente de apenas algumas delas.

As redes alimentares nas quais predominam fortes conexões alimentares são mais suscetíveis ao colapso do que aquelas em que os predadores têm, principalmente, interações alimentares fracas com a maioria de suas espécies de presas. Faz sentido que seja assim.

Ao depender demais de uma espécie de presa, corre-se o risco de também desaparecer se ela for afetada por algum motivo. Aqui fica claro como isso se aplica à nossa situação com o vírus: nossa esfera humana global está excessivamente conectada. Cada vez mais, dependemos muito de alimentos e produtos que estão distantes de onde estamos.

Nós viajamos demais, em grandes grupos e vamos a lugares muito distantes. Estamos vendo agora como, em uma rede superconectada, um distúrbio localizado, como o aparecimento de um vírus fatal, pode se espalhar e amplificar sistemicamente, com muita velocidade, reduzindo a resiliência e aumentando a probabilidade de colapso de todo o sistema.

Podemos até concluir que o relacionamento matemático que descreve a distribuição de frequências de interações em uma rede saudável agiria como na lei da energia, com muitas interações fracas chegando a um pico e depois se arrastando lentamente em direção a poucas fortes interações.

Mas, afinal, Gaia tem um propósito em nos enviar o vírus? Aqui, é claro, estamos em um terreno muito mais complicado, pois não podemos explorar essa questão da maneira científica tradicional. O cientista em mim me diz para abordar esta área com muito cuidado, e estou inclinado a concordar.

Apesar do meu grande interesse e amor pela psique, não quero aceitar nada que não tenha passado em algum tipo de teste de estresse.

Portanto, se quisermos imaginar qual seria o propósito de Gaia em nos impedir de seguir nossas vidas por causa do vírus, nos privando de um contato social próximo, de viagens e consumo de massa, melhor tentar o seguinte: ela está nos ensinando.

Como assim? Somos claramente membros de uma cultura superconectada, profundamente rebelde, e cega à Gaia. Nossos cientistas climáticos já deixaram bem claro que o aquecimento desenfreado do planeta levará a uma catástrofe ecológica e social global, inimaginavelmente vasta e irreversível.

No entanto, desconsideramos a mensagem: eles devem estar errados, isso não acontecerá agora, qualquer dia desses encontraremos uma solução. Então, talvez o vírus seja a maneira de Gaia nos dar uma amostra de como seria uma catástrofe global em uma escala muito mais vasta.

A crise do vírus é grande e imediata o suficiente para nos fazer parar, refletir e reavaliar todo o nosso modo de vida, mas também é uma crise que devemos ser capazes de resolver com nossa ciência, tecnologia e engenhosidade. Em outras palavras, ela está nos dando a chance de aprender ao nos confrontar com uma crise que, esperamos, seja até certo ponto, reversível. O mesmo não poderá ser dito sobre as mudanças climáticas e a extinção em massa.

Uma vez que - e provavelmente muito em breve - o planeta caminha para o aquecimento irreversível, o que, por definição, não nos deixará muito a fazer.

Assim, com o vírus, estaria Gaia nos dando uma última chance de aprender a amar e valorizar o local, a ser pequeno, a desacelerar e consumir muito menos, a ser humilde e a ser belo novamente como espécie em sua vasta e brilhante presença terrena?

Como mãe, ela é dura, talvez, mas no final, pode acabar sendo estranhamente gentil se o vírus nos fizer perceber o que acontecerá quando a mudança climática se tornar incontrolável por causa de nossa interminável sede de crescimento econômico.

Inundações, derretimento das geleiras, secas e incêndios não funcionaram. Talvez o vírus nos faça ouvir.

Stephan Harding é pesquisador do Departamento de Ecologia Profunda e coordenador do mestrado de Ciências Holísticas do Schumacher College (UK).

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