O que não é a igreja?

Não é uma tarefa fácil definir a igreja. Aliás, está aí uma parte do estudo teológico que poucos querem se aprofundar. Conceituar a igreja é um desafio, escrever sobre ela é uma aventura e viver como igreja uma loucura.

Por esse motivo, minha conceituação de igreja não seguirá no caminho da velha explicação grega do que é ekklesia, dos chamados para fora, está definição você já ouviu e leu muitas vezes.

Quero que você me acompanhe num raciocínio um pouco diferente de definição. Pensar o que é uma coisa a partir do que ela não é. Uma conceituação negativa. Isso não é propriamente meu, estou tomando emprestado da filosofia judaica.

Na filosofia medieval judaica, este conceito é comum ao responder indagações sobre quem é Deus e seus atos. Pois, sendo Deus, Deus, como poderíamos nos descreve-lo ou em linguagem filosófica predicado alguma coisa de seu ser? Para a mente humana Deus é indescritível, e tudo o que pensamos saber sobre Deus não passa de mera suposição baseada em nossas próprias experiências humanas e como poderíamos atribuir isso ao Eterno? No fim, a única forma de descrever Deus é de modo negativo. Havendo em nós incapacidade para descreve-lo devemos pensar no que Ele não é.

Vejo essa indescritibilidade quando o assunto é igreja também. Não somos capazes de compreender bem a igreja, pois foi Cristo, o verbo eterno de Deus quem a instituiu. Parece que tudo aquilo ligado a eternidade é difícil de definir. Faz sentido, pois se pudermos definir a eternidade, ela seria temporal.

Definir a igreja, portanto, requer compreende-la também de modo negativo, por aquilo que ela não é. Muitos autores empreenderam estudar a igreja e atualmente há um retorno ao estudo sobre a igreja, talvez devido a imensidão dos problemas que encontramos nela hoje. Cada um destes autores do passado, viram-se ou diante de um assunto com pouca importância ou diante de um assunto muito desafiador. Não poderia jamais tentar me colocar em pé de igualdade aos que vieram antes de mim ou aos que são contemporâneos a mim e dizer que descobri o que é a igreja como alguém que simplesmente descobre uma nova fórmula científica que explica uma porção de comportamentos do nosso universo. Tenho que me colocar em reflexão e partir do ponto de vista da experiência.

Nesse caso então, é possível considerar a minha abordagem de definição sobre a igreja menos baseada em conceitos históricos, ou dogmáticos. Minha abordagem tem como ponto de partida minhas próprias experiências com a igreja (e acredite, mesmo sendo novo, foram muitas) e no que posso identificar dos cenários onde ela está exposta. Portanto, uma abordagem mais empírica, mais científica.

Nos últimos anos temos vivido no Brasil uma crise de identidade evangélica absurda. Somos mais de 100.000 denominações com os mais variados costumes, doutrinas e modelos. Não adianta dizermos que somos um só, porque se colocarem todos os líderes denominacional em uma sala e lançarem a questão: Beber é pecado, não haverá uma discussão saudável que visa a liberdade de pensamento, mas provavelmente haverão brigas, fogueiras, e acusações contra heresias por todo o lado. Escrevo enquanto um Batista, defensor árduo do modelo congregacional, que presa pela liberdade de pensamento é transparência. Não foram poucas as assembléias em que vi situações complicadas e até mesmo atos de violência.

Ainda sobre identidade, quais dos pentecostais poderia descrever a unidade de pensamento pentecostal? Alguns estudiosos tem dividido o protestantismo pentecostal em diversas ondas de mudanças e acréscimos de elementos totalmente distinto da experiência do pentecoste bíblico. Há uma crise profunda de identidade. Como podemos nos definir como igreja evangélica? Como podemos conceituar nossa realidade?

A propósito, vejo que o problema da identidade está relacionado diretamente com a confiança. Há no lado de fora aqueles que não confiam e há do lá de dentro muitos que desconfiam. E por causa disso o cenário que encontramos no meio evangélico hoje é de um volumoso trânsito religioso bem como o êxodo da igreja.

Isso mesmo. Você deve se lembrar da história bíblica do êxodo. Ela tem um livro que leva seu nome e relata este momento na vida do pouco de Israel. O povo entrou no Egito com a esperança de salvação mas acabou se tornando escravo. Escravo de um Faraó opressor, escravo de um pouco que o tratava como diferente, escravo de uma cultura que não era propriamente a sua. Escravidão. Neste contexto o povo clama a Deus e chora por uma resposta. Deus ouve sua oração e convoca Moisés para uma missão especial. Moisés tem a responsabilidade de ser o instrumento de Deus na libertação do povo da tirania do Egito e você já conhece o fim da história.

O Êxodo tem muito a nos ensinar sobre a perspectiva que tem sido construída atualmente sobre a igreja. A igreja para muitos tem se tornado o Egito. Embora ela tenha a figura da comunidade de salvação, ela tem sido para muitos um insuportável ambiente de escravidão e opressão. Precisamos ser sinceros em relação a isso ou jamais nos colocaremos na reflexão que pode trazer alívio e paz em nosso coração sobre a igreja.

Para alguns hoje em dia (e não são poucos) a igreja é um ambiente que faz dos necessitados de salvação, escravos. Oprime o pensamento. É regido por um faraó ditador. Não possui alimento saudável. Não tolera falhas. Enriquece às custas de seus escravos. Usam as pessoas para construção de suas pirâmides. E não as deixam seguir seu caminho fazendo terríveis ameaças.

Um dia estas pessoas olharam para a igreja como um lugar de salvação, onde ouviram o Evangelho e sentiram-se nos braços de um salvador. Deixaram ali aos pés de Jesus as suas cargas e decidiram carregar um fardo leve do mestre. Mas o tempo passou, envolveram-se em processos, estruturas, modelos. Deixaram-se levar pelo encanto sinuoso da religião, embriagaram-se com ela e tornaram-se viciados na sua “nóia”. Assim, aquilo que tanto amava tornou-se insuportável ao seu próprio coração. O lugar de salvação tornou-se centro de punição e escravidão. Mas o problema estava realmente lá?

Hoje, muitos destes decepcionados com a igreja, partem no caminho de descrevê-la a partir do que ela é. Mas como poderiam descrever algo que não é seu? Posso falar sobre isso a partir do projeto de minha própria casa. Quando eu e minha esposa Jéssica decidimos reformar a casa de meu sogro, nós não tinhamos qualquer noção dos desafios que se apresentariam diante de nós. Subir paredes e planejar cômodos não dependia do que nós poderiamos imaginar sobre a estrutura da casa, dependia de que nós soubéssemos como foi construida. A casa não era nossa. Meu sogro ajudou em muitas etapas os responsáveis pela obra. Pois, ele, melhor do que ninguém sabia como estava a sua estrutura.

Penso na igreja de forma semelhante. Não poderíamos dizer o que ela é, porque nossa visão sobre a igreja está limitada ao que podemos ver exteriormente da igreja, não sua natureza espiritual na eternidade com Deus. Nossa visão está relacionada com aquilo que vivemos na igreja, mas jamais com o coração do seu fundador: Jesus Cristo. Com isso, perdemos a capacidade de excercer qualquer julgamento sobre ela, e a única coisa que podemos fazer é identificar segundo o que se apresenta como ensino de Jesus nos relatos bíblicos a comparação com aquilo que não estamos fazendo e dizer o que a igreja não é.

Parte do nosso processo hoje de avaliação da igreja, é considerar o quanto ela está distante dos ensinos do seu próprio fundador, e reavaliar nossa identidade e buscarmos a reconstrução da igreja como lugar onde o mundo encontra salvação, e aqueles que vivem nela permanecem num estado de liberdade e alegria na fé, experimentando na vida em comunidade o ante-gozo dos céus. A igreja sendo aquilo que ela deveria ser, a presença de Cristo em um mundo sem Cristo, o céu na terra.

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