bêbada

eu jurei que esse seria o meu último texto sobre você e provavelmente estou enganando a mim mesma, mas tudo bem. a gente se ilude uma centena de vezes acreditando no que pode ser melhor ou pior, porém, acaba sempre onde não devia estar. veja só onde eu estou! pareço apenas um grão microscópico da areia-branca-de-praia que tu és. essa é a questão, entende? a razão desse texto é a minha luta recente e constante de me desintoxicar. absorvi tanto de você nesses últimos tempos que esqueci de olhar para mim, de perceber minhas reais necessidades e possibilidades. me tornei apenas um grão ao lado da tua grandeza em mim. me apaguei. estive distante da minha realidade e idealizei infinitas cenas para nós, o que é engraçado porque eu, no fundo, não queria que nada disso pudesse ser real.

sempre soube que não tinha estruturas para viver no teu patamar, no teu nível, porque tu tens um cheiro de lucidez que me envenena e eu sempre odiei a sobriedade do mundo. no fim das contas, eu sei que a culpa não é da embriaguez pelo vinho barato, é do medo que tenho do teu equilíbrio e do quanto você leva a sério esse lance de moderação. no fim das contas, eu sei que a culpa não é da mistura incrível que a vodka, o limão e o açúcar formam, mas do pavor que eu tenho da inquietude do teu ser, dessa tua capacidade de optar sempre pela segurança. no fim das contas, eu sei que a culpa não é da ressaca que me desmonta pelas manhãs, mas do teu sorriso doce, do teu toque manso e do teu olhar arrebatador que em um segundo me faz desejar viver em frente a ele para sempre.

no fim das contas a gente nunca existiu, entende? fomos sempre eu e você, distantes, por isso nem sequer “fomos”. esse não é um texto sobre fim porque nós nem sequer começamos, mas podemos chamar de um desabafo abobado a respeito de algo que nunca existiu e que nem podia. nós não fomos projetadas para isso, pra encaixar — não uma na outra.

não é à toa que eu prefiro estar bêbada.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.