eu leveza e você pressa

o som alto fazia a interpretação do justin vernon de i can’t make you love me ecoar por todo o ambiente da festa enquanto eu me perdia ali, entre seus braços e afagos. podes dizer que eu sonhava, até porque tu sabes como a música sempre teve poder suficiente para me levar para dimensões atemporais e universos paralelos a esse que conhecemos. mas não, não era um sonho, eu garanto! em pouquíssimos segundos eu estava exatamente onde sempre quis estar: nas nuvens — ou seria na curva que se forma entre teu pescoço e ombro?

sentir teu cheiro tão de perto arruinou todas as estruturas que tanto me preocupei em manter durante todos esses anos. eu tremi e espero que você não tenha sentido meus lábios vibrando quando eles tocaram seu rosto.

estar tão perto e te perceber tão longe me assustava absurdamente, mas eu me preocupei tanto em absorver ao máximo daquele instante que até esqueci o fato de que a sua cabeça está em outro lugar, em outro alguém. e eu entendo, pequena, te juro que entendo. que culpa tu tens por encantar tantas pessoas a tua volta e que culpa tenho eu de ter sido afetada?

nenhuma. mas quem disse que meu coração descompassado entende?

ainda fitando seu rosto entendi que certos sentimentos existem apenas para fazer com que a gente sinta o chão deformando, se corroendo e desaparecendo em um buraco negro. e não, a gente não sente medo, porque eu ainda consigo lembrar da sensação de ter me permitido cair nele, me emborrachando uma fração de segundo depois justamente nos teus braços. foi tão intenso que eu senti uma vontade desmedida de gritar aos cantos todos do mundo que teu abraço parecia casa e podia, sem dúvidas, ser meu novo lar, mas não fiz isso. na verdade, eu recuei. eu sempre recuo.

recuei porque não havia segurança da tua parte, porque meu abraço nunca te pareceu nada além de um repouso eventual, uma curta estada em mim. recuei porque enquanto eu me permitia despencar buraco negro abaixo, tu mantinhas os pés firmes no chão e os pensamentos longe de tudo que os meus idealizavam. recuei porque precisei de maturidade para entender que esse amor romântico e correspondido não precisa, de fato, acontecer.

e apesar do que parece, tudo isso aconteceu em pouquíssimos minutos. o suficiente para a música acabar e você desatar o nó, ou melhor, o acanhado abraço que se formou entre nós. minhas mãos deslizaram por uma extensão significativa da lateral do teu corpo e, por fim, tocaram as suas de modo inseguro enquanto nossos corpos se afastavam lentamente. e esse meu gesto foi suficiente para você partir com esses olhos negros repletos de mistério em busca do seu verdadeiro rumo.

e eu? eu perdi meu rumo quando perdi você de vista, mas logo encontro. aliás, quando a gente se esbarra de novo? não consigo me livrar do vício que tenho de te ter, mesmo que superficialmente, e eu sei exatamente o quanto isso te assusta.

eu sempre quis leveza e tu tem muita pressa, então tudo bem se você se vai e eu fico nessa.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.