naufrágio

sou barco frágil meio perdido em um vasto oceano que carrega em cada gota um pouco de ti. não há farol, não há comunicação fora dessa embarcação pequena e delicada que eu sou. toda a física e geometria que me compõe ganhou teus traços, mas transformou o meu eu-barco em andarilho. fizeste de mim tua releitura, mas não te passou pela cabeça o fato de que eu ficaria sem direção depois disso.

teu toque modificou minha estrutura e eu me tornei barco-casa pra ti, mas tu foi embora. tu sempre vai embora e eu fico vulnerável a maré, viro barco à deriva. tens costume de pedir repouso nos corações alheios mesmo sem abrir a boca e a gente pensa que dessa vez é certo, você fica, mas não. a história sempre se repete.

você se vai e de repente eu viro barco-escritor que escreve na intensão de se encontrar, mas essa é só mais uma das expectativas que eu alimento. e de tanto alimentá-las, veja só, eu naufraguei.