quebrei meu paradigma
dizem que há um seleto grupo de pessoas em nossa sociedade que não se encaixa pelo simples fato de que, para eles, os sentimentos são sempre incógnitas complexas e carregadas do sentimentalismo que tanto os assusta. esse amontoado de pessoas ditas como vazias costumam ser pré-julgadas pela inclinação ao medo, porque vivem preparados e seguros o suficiente para fugir sempre que sentem a ameaça de um sentimento arrebatador respirando um pouco mais forte na nuca.
jurei me encaixar exatamente entre esse meio, porque sempre estive pronta para bater em retirada quando qualquer resquício de sentimento mais intenso ousava aparecer na minha porta. não por ansiar muito a liberdade, mas por ter uma carência enorme de segurança, esta que sentimentos desse porte simplesmente não trazem tão fácil. nunca quis transparecer algo diferente do que sou, apesar de que poucas vezes expus realmente o que meu interior guarda em seu aspecto mais sensível. só quis me proteger do mundo e foi me protegendo tanto dele que esqueci de me proteger de você.
a verdade é que você nunca se pareceu com nada que me remetesse a ameaça, mas ouvi inúmeras vezes durante anos que as aparências enganam e talvez acredite um pouco nessa afirmação agora. nunca imaginei que você tivesse poder para ser a respiração quente e longa na minha nuca que não me permitiria fugir. foi exatamente nesse momento que me dei conta de nunca fiz efetivamente parte daquele grupo que citei anteriormente e só estava aguardando por surpresas que não tinha vivenciado ainda. nenhuma respiração, toque ou cheiro tinha me prendido antes e, consequentemente, eu nunca havia sentido todo esse turbilhão de sentimentos que se parecem com um sopro novo de vida — algo que eu nunca experimentei.
eu decorei tuas manias. um dia desses, sem perceber, repeti um dos teus trejeitos e sorri da maneira mais desajeitada e boba possível. nesse instante o sangue quente pulsando dentro de mim e o compasso acelerado do meu coração transmitiram a mensagem: eu não era daquele grupo, eu não era vazia. para resumir, você despertou meu ser e deu a ele uma aula do que é sentir tudo estremecer, vibrar e, principalmente, viver.
e eu já não sinto mais medo e minha única opção de fuga vai em direção aos teus braços. não, eu nunca soube fugir ou, de fato, nunca precisei e, sinceramente, não quero precisar agora. nesse momento eu corro com medo do mundo, esbarro em ti e só de sentir teu cheiro percebo que encontrei um lugar seguro, um lugar feito quase que perfeitamente para mim. eu quero ficar.
deixa?
