seria esse um desabafo se você fosse ler, mas não vai

acho que nunca escrevi sobre você e essa é minha primeira tentativa, o que torna meus erros e falhas justificáveis dentro desse universo paralelo que se resume a um espaço em branco totalmente entregue as minhas palavras promissoras. antes de começar essa pseudo-carta ou relato que provavelmente nunca vais ler, queria te garantir que eu entendo. super compreendo o quanto as coisas andam difíceis e pesadas para nós duas, ainda que uma não saiba realmente o quão complexa é a aflição da outra. portanto, desejo que teu coração sinta de alguma forma o carinho e o amor que tenho por todo teu ser, mesmo que meu jeito torto de levar a vida não demonstre isso da forma mais clara.

cresci com um turbilhão de questões na minha cabeça e achei, desde o início, que você não era capaz de entender. me senti sozinha, eu confesso. sempre fui subversiva e isso te assustou, eu sei também. cresci sem nenhum resquício de conformismo interno, ainda que externasse exatamente o contrário. minha cabeça nunca aceitou a realidade em que a gente vivia, mas, no fim das contas, eu precisei superar esse rancor e aceitar.

nós passamos por momentos parecidos, não é? ainda que eu não conheça metade das histórias que tu tens guardado e tu não tenha ideia alguma das que eu guardo. mas desde que me dei conta de que você passou por algo parecido com o que passei, meu coração anda mais apertado do que nunca. queria te proteger o suficiente para anular suas dores, porque sei o quanto as minhas me atormentam até hoje. sei que contigo não é diferente. porém, a questão é que nós temos um espírito sensível, vulnerável e vivemos por aí, absorvendo as merdas do mundo para tornar o dia de quem a gente ama mais leve. mas, e nós? quando a gente pensa na nossa dor e busca uma solução para ela?

vou te confessar que guardei alguns rancores tristes durante meus dias e senti, por inúmeras vezes, que você merecia algo melhor do mundo — algo que não fosse eu e essa minha pilha de caos. sinto que errei com você e isso é frequente. acontece quando acordo, quando respiro, quando existo. não queria ter errado e há quem diga que não errei, que foram as circunstâncias e que eu era jovem o suficiente para não tem controle sob certas coisas. espero que um dia você possa entender todos os caracteres dessa história e que perdoe a pessoa que mais te ama nesse mundo, eu.

enfim, eu te instalei em uma situação extremamente complicada e sinto que ano após ano o meu pecado contigo aumenta e toma dimensões assustadoras para mim, mas tu ainda não sabes disso. pelo menos não entendes que a culpa é da minha vulnerabilidade excessiva e da minha mania de simplesmente guardar absolutamente tudo na mente. espero que entendas que minha maior vontade, desde sempre, se resume em rasgar o peito e gritar para o mundo que a gente não devia ter sido tão machucada assim. não deviam ter tocado tão profundo e sem piedade em nós. não deviam ter nos ferido assim.

às vezes tenho a sensação de que estou te fazendo viver minhas dores sem que saibas e isso me dói numa proporção que não imaginas. meu peito só corrói mais e mais todos os dias, porque esse fato é idêntico ao tiro no peito, que deixa a bala alojada ali, que eu nunca levei mas sinto como se tivesse, porque o meu coração é fraco, dolorido, quase morto. às vezes idealizo uma vida diferente para ti, uma vida sem as minhas expectativas nela, uma vida sem o reflexo das minhas fraquezas e da minha nojeira toda. idealizo uma vida leve para ti, repleta de carinho e de pureza. uma vida onde a minha sujeira não te afete, não te esgote, não te puna, não te prive, não te destrua aos poucos. às vezes eu imagino muitas possibilidades para nós, mas eu acabo aqui.

acabo trancada em um quarto enquanto você ocupa o outro. eu sufocada em minhas dores aqui e tu aí. eu te sussurrando uma enxurrada de pedidos de perdão enquanto o único som que a gente realmente pode ouvir é o dos nossos monstros atormentando embaixo da cama, no lado dela, na frente dela e dentro de nós.

eu fecho os olhos, as lágrimas despencam e parecem mutilar cada centímetro do meu rosto. aposto que você sente o mesmo e meu coração, de novo, se fragmenta e eu sinto vontade de morrer. mas lembro que preciso resistir, sobreviver e te ajudar nessa missão também. quando a tempestade passa, eu afundo o rosto no travesseiro, penso em mil merdas a madrugada inteira, mas acabo o dia desejando o melhor para nós duas, um pouco de paz e umas doses de liberdade. fico desejando que tu sintas meu amor e que ele seja valente o suficiente para nos curar.

me forço a lembrar que nós temos nosso próprio tempo. não temos tempo a perder. por isso, cubra seus ouvidos por alguns instantes e permita-se sentir esse silêncio. sabe a calmaria dele? um dia ainda vou te fazer sentir na pele.

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