utopia
a observação é um dos presentes mais preciosos que já recebemos nessa condição de humanidade que nos foi concedida. podemos, de fato, enxergar a nós mesmos, mas sobretudo, podemos deslumbrar sobre a observação do outro.
eu amo te observar.
seus braços se movem harmonicamente no som da música e seu corpo se movimenta em contraste perfeito com todos os outros corpos que vibram exaltados e em multidão. mas você é luz. teu tom vibrante faz os outros destoarem e meus olhos se fixam na tarefa nada árdua de contemplar tua existência aqui — tão próxima e distante ao mesmo tempo.
teu cheiro de vida penetrou meus poros aos poucos e me serviu como gatilho, me impulsionou para frente. o toque dos teus dedos me transmitem a sensação de que eu posso transcender a vida. aos poucos teu sorriso me tirou da posição de cética e eu acreditei fielmente que a força da minha mente poderia me transportar para onde quer que eu quisesse ir, ainda que eu já estivesse no meu lugar preferido.
mas, ainda sobre observar, eu confesso: odeio a sensação de ser observada e a intensidade alheia me assusta sempre que me ponho no papel de observadora. é nesse instante crio uma imagem totalmente hipócrita minha, porque te olhar sempre me bastou como combustível para as mil fantasias que já criei e escrevi sobre um nós que te inclui, mas que não existe.
percebes como poucas coisas existem na história desse pseudo-amor que eu tanto escrevo?
