Carta para obesidade

Mãe,

Por tanto tempo desejei escrever uma carta a você, como quando criança, onde colocava desenhos e frases de efeito dizendo o quanto te amava “do fundo do coração” e o quanto era importante para mim. Eu cresci, as cartas se tornaram raras e hoje, nossas personalidades tão distintas se confrontam. Quero dizer que mesmo com nossa relação tão conturbada, espero que entenda o real significado dessas minhas palavras.

Antes de tudo, quero endereçar essa carta a minha obesidade, algo que você provoca e odeia profundamente. Eu também a odiava, mãe. Odiava colocar calças apertadas, o peso dos meus seios, as estrias e celulites que marcaram meu corpo. Mãe, eu sempre me senti mal por ser gorda e, por isso, sempre fiz as dietas malucas e fui aos vários nutricionistas que você me indicava, procurando uma solução para o que você chama de “ansiedade”, “compulsividade” e “gulodice”.

Tanto, mãe, que me entupi de remédios, emagreci muito e fiquei feliz pelo meu sucesso, mas feliz também pelo seu esforço em aplaudir minha coragem em vestir três números a menos em pouquíssimo tempo. Também vi sua alegria quando eu fechava a boca e passava o dia inteiro comendo frutas na escola, como um passarinho. Lembra o quanto eu tinha sono naquela época e você me dizia que era por causa do meu peso? Pois é, hoje vejo as tantas loucuras que fiz para provar a você que eu poderia ser uma menina magra como as minhas coleguinhas de turma.

Mas aí, relembrando todos esses anos, me vejo ainda pequena, lá em meus três, quatro anos. Retorno às memórias aflitas de quando você me enchia de vitaminas, mingau, farinha, polivitamínicos e outras coisas porque eu era uma criança extremamente magra. E as vezes que você fazia com que eu comesse tudo que estava no prato, porque era “pecado jogar comida fora com tanta criança no mundo passando fome”. Eu não tinha vontade de comer além da conta, mãe, mas o fazia porque sabia que você iria ficar chateada, além de Deus, é claro. E eu não gostaria de desrespeitar ambos. Te provocar nunca foi minha intenção, mas com isso, eu digo e afirmo o quanto sofri até me aceitar completamente como ser humano.

Mas mãe, hoje, em meus 20 e poucos anos, comecei a compreender o sentido de muitas coisas. Eu sei que você se preocupava com minha saúde, que me medicava e me fazia ingerir tudo pela frente com medo de que eu pudesse adoecer. Você não entendia que meu biotipo era aquele, que eu era uma criança super ativa e que minha forma física era normal. Era mais fácil acreditar que cheinha, você estava cumprindo um de seus papéis como mãe. E isso é natural.

Quando cresci, ouvi muitas vezes calada sobre meu sobrepeso, mas eu fui uma adolescente absolutamente normal. Minha infelicidade não era em relação ao número 34 das roupas de minhas coleguinhas de sala, mas sim porque sempre que eu estava comendo, era praticamente expulsa da mesa por ter tanta “compulsão e ansiedade”, como você mesma dizia. Passei a comer escondida para não te deixar triste, chorei muitas vezes porque você colocava a palavra “gorda” no meu dia a dia, acreditando que gritando a plenos pulmões, eu emagreceria todo o peso que a senhora gostaria. Pois é.

Hoje, nos meus quase cem quilos, acredita que eu me aceito? Ontem, quando a senhora falou pela centésima vez no mês que eu estava enorme, não senti ódio de mim como antes. Há algum tempo, tomei consciência e me assumi como eu sou, respeitando meus limites. E isso não quer dizer que eu não vá perder peso, mãe, mas sim que quando eu puder e quiser, será por mim mesma e não pelos outros, nem mesmo por você. Sabe, é que eu cansei de ouvir que minha obesidade era fruto de transtornos e preguiça. Não estou disposta a aceitar que meu 30 quilos a mais é uma falha de caráter, que é pejorativo, incompetência ou doença.

Agora reconheço que não necessito ser magra para que os outros me amem, me aceitem do jeitinho que sou, nem mesmo preciso emagrecer para arrumar uma pessoa que também me admire, mãe. Eu continuo sadia, inteligente e cada dia mais linda por dentro e por fora, e isso tudo porque me aceito. E isso me basta. Espero que a senhora, a partir de hoje, me aceite também, com minhas qualidades e meus defeitos e que, juntas, possamos contribuir para um mundo onde as adversidades e diferenças sejam pequenas diante de tantas outras coisas lindas. Mas ó, eu e você, de mãos dadas, nada mais.

Porque ser gordo não é defeito e me amar é mais importante, primeiro.