Memórias de um de maio

Uma homenagem ao super-herói da minha infância

Quem me conhece, sabe: a memória nunca foi meu grande super-poder.

Esta é, inclusive, a frase que sempre uso.

O cara que, no jantar, se esquece do que almoçou? Quem me dera. Na sobremesa, eu já não lembro mais.

Sou o clichê do marido que conta com a memória da esposa para guardar tanto os detalhes tediosos da vida prosaica quanto as aventuras mais especiais de viagens once in a lifetime.

No entanto, lembro de tudo daquele 1 de Maio.

Já com o rádio ligado na Jovem Pan AM, acordei cedo para acompanhar o warm up do Grande Prêmio de San Marino. Nos idos dos anos 90, os 30 minutinhos de aquecimento no domingo tinham a mania de ser um ótimo prognóstico do que aconteceria, horas depois, na corrida. Saudades, warm up.

Mas nenhum repórter parecia muito interessado em resultados esportivos. O assunto era um só: a morte do piloto Roland Ratzenberger no dia anterior.

Assim, escovando os dentes, meu primeiro pensamento do dia foi mesquinho como só um pré-adolescente consegue ser: “puxa, morreu esse piloto que eu nem sei o nome direito e não se fala em outra coisa. Imagine se fosse alguém bom”.

Pois é, imagine só.

A corrida começou e, desanimado pelas duas primeiras derrotas, decidi mudar de ares em busca de melhor sorte. Em vez de descer e assistir à largada na TV grande da sala, fiquei no quarto, em frente à minha Mitsubishi de 14 polegadas, onde eu costumava jogar Mega Drive.

Expediente que também seria usado (com sucesso, então) na Copa do Mundo que se aproximava. Quando a coisa apertava para o lado do Brasil, lá ia eu correndo para minha televisãozinha - de preferência, em outro canal - e a magia acontecia: Branco fazia gol de falta, Romário subia de cabeça, Baggio mandava o pênalti na lua.

Mas o ritual não começou nada fantástico.

Antes mesmo do meu pai se juntar a mim, o primeiro acidente: Lamy, Letho e mais um monte de gente se espatifando no fundo do grid.

Bandeira amarela, safety car, Senna na frente com Schumacher colado.

Relargada, sinal verde, Senna na frente com Schumacher colado.

Acelera, Ayrton. São 20 pontos que você precisa descontar, não pode dar moleza.

Porra!

(Na verdade, devo ter dito algo como “merda”. Eu não falava palavrão na frente do meu pai.)

“Quem bateu?” — minha mãe perguntou, entrando no quarto e vendo o atendimento médico que já se alongava.

“Damon Hill. Foi o Damon Hill, mãe”, eu respondi, como criança, talvez tentando protegê-la da tristeza inevitável.

“Não faça isso”. Meu pai sempre abominou mentiras de qualquer tipo, mesmo que tivessem boa intenção, se isso pode ser possível. Obrigado, pai.

Olha lá, mexeu a cabeça. Ufa, ele está bem.

Ué, helicóptero? Precisa tudo isso?

Voltas e mais voltas sem informações concretas. Naquele tempo, não havia Google, Facebook e, àquela hora, já não havia mais esperança.

Schumacher ganhou mais uma. Sorriu no pódio, então, deve estar tudo bem com o Senna. Mas 30 pontos de diferença? Nem no ano anterior, com Prost na Williams de outro planeta, o campeonato tinha começado tão mal.

O que eu sabia, do alto dos meus 13 anos incompletos? NUNCA um campeonato começara tão mal.

Roberto Cabrini, do hospital Maggiore de Bolonha, deu a notícia que nunca gostaria de dar. O coração de Ayrton Senna tinha parado de bater.

Morreu Ayrton Senna da Silva.

Morreu alguém bom.

Não chorei. Demorei para entender que meu herói da TV, que tantas vezes eu controlara no Super Monaco GP 2, havia morrido. Mesmo testemunhando, ao vivo, o choro inédito do meu herói da vida real, não acreditei.

Com Senna, o brasileiro não sabia direito o que era perder. Até Senna, gente da minha idade não sabia direito o que era perder alguém.

Voltando ao estado normal da minha memória, não lembro de muito que aconteceu no dia seguinte.

Apenas que, no café da manhã, olhei para um desenho que eu havia feito dias antes. A Williams número 2, com o capacete amarelo e uma bandeira do Brasil. Ayrton Senna tetracampeão.

Ele desejara tanto correr naquele carro azul. Eu queria tanto vê-lo campeão naquele carro azul. Foi quando meu egoísmo de quem ainda não tinha 13 anos se conectou com a ambição de quem nunca faria 35.

Finalmente, chorei.

Nunca mais esqueci.

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