A MELANCOLIA É UMA PUTA DE UMA GOSTOSA

eu sento no consultório da minha terapeuta após dois anos e meio e começo a falar. ela sorri. eu sentia saudades daqui. pouca coisa mudou. com exceção do fato de que agora ela tem uma cachorra gorda que tá sempre com a língua pra fora. ela também sorri pra mim enquanto eu me ajeito na poltrona e ela sente o cheiro da minha cachorra nos meus pés e na barra da minha calça. eu tento manter a seriedade enquanto aquele serzinho ronca e me lambe. eu gosto de causar uma entrada em lugares assim. sempre chego com algo inteligente e instigante pra falar. eu tenho uma estranha obsessão por ser o centro das atenções enquanto finjo não gostar da atenção. faz parte do que sou ou do que digo ser para mim e para os outros.

- eu envelheci muito nos últimos dois anos. — eu digo. sem mentir.

ela olha pra mim e consente e eu começo a falar.

falamos sobre os anos que passaram e sobre como eu me tornei tudo o que eu desejava ao mesmo tempo que me tornei um pesadelo à imagem do que eu um dia poderia ser. a conversa é boa. eu sinto minha pele corar. meus ombros se aliviarem por um tempo. o nó no meu estômago se desfazer e a minha garganta secar enquanto algumas lembranças implodem dentro do meu peito.

- a melancolia é muito sedutora. — ela diz, em um momento.

vou embora dali com aquelas palavras na cabeça. “a melancolia é muito sedutora”. caralho. e enquanto razão e emoção brigam pelo brilho dos meus olhos eu repito pra mim mesmo: “a melancolia é muito sedutora”. andando de cabeça baixa, escuto meu estômago roncar e revirar dentro de mim. é o nó voltando. o peso nos meus ombros me joga pra perto do chão. eu rastejo entre o lixo e o escarro de um mendigo que se confunde com o asfalto. meus olhos marejam nas esquinas da minha alma e eu sento no carro me deixando suar com o calor de São Paulo.

a melancolia é uma puta de uma gostosa.vestindo uma meia arrastão e pisando no meu peito enquanto eu peço mais. implorando para que eu vá mais fundo enquanto eu me seguro pra não gozar antes da hora. pedindo pra eu ir mais rápido. suplicando para que eu me despeje inteiro em cima dela. me beijando com a boca vermelha. virando a mão na minha cara. apertando meu pescoço. arranhando minhas costas. se marcando em mim. me socando no olho esquerdo e rindo da minha mediocridade quando termino.

ela me trata como um adolescente. tira a virgindade do meu pau sofrido numa tarde qualquer de um dia insignificante de fevereiro em um ano sem memórias. coloca minha mão em seu seio e me empurra pra dentro. me aperta quando tento fugir. faz chantagem emocional quando ameaço aprender algo. me põe pra dormir quando eu tenho medo do escuro e busca abrigo entre as cobertas quando o frio faz arrepiar cada centímetro da minha espinha. conta vantagem. me ilude. diz que sou o melhor, o maior. diz que sou o primeiro. cospe mentiras na minha cara enquanto eu tento encontrar a minha verdade.

a melancolia é uma puta de uma gostosa.

me chupa enquanto acelero na estrada ao pôr do sol. me engole enquanto ultrapasso um ônibus em alta velocidade. tapa meus olhos quando considero a possibilidade de acelerar em uma curva fechada. coloca uma música pra tocar e não deixa eu mudar de estação. ri de mim quando me irrito. faz eu questionar o nosso lugar ao mundo e o meu lugar ao lado dela. me acalma batendo uma punheta pra mim no trânsito da vinte e três de maio enquanto as luzes dos postes se acendem iluminando minha visão turva de tanto desejo. senta no meu colo e se esfrega contra mim em uma rua deserta depois de um jantar que termina mais cedo que o necessário. vai embora sem deixar eu abrir a porta do carro pra ela. vai embora sem se despedir. vai embora quando eu peço pra ficar.

a melancolia transa comigo durante horas enquanto a brisa leve bate em meu rosto pela fresta da janela. eu sinto meu coração parar por uns segundos enquanto busco ar no meio das suas pernas. com o canto do olho eu busco o olhar curioso de um velho tarado que nos observa no prédio ao lado. ameaço ele de morte. prometo encontrá-lo no inferno e isso a excita. eu sou seu homem. eu sou inabalável e a minha prepotência só é menor que o tendão inchado do meu pau. ela me faz juras de amor eterno enquanto eu considero a possibilidade daquilo ser algo concreto. ela treme abaixo de mim enquanto sinto um poder divino me invadir. enquanto eu toco os céus com a ponta da minha língua buscando o caminho do paraíso, tateando no escuro e convencendo a mim mesmo que eu sei o que eu estou fazendo. e que, acima de tudo, aquilo me faz bem. ela fala de mim pras amigas. e ri de mim quando eu brocho pela segunda vez. ela vai embora da minha casa aos primeiros raios de sol, buscar conforto no colo do seu ex-amante enquanto eu penso sobre o que almoçar, formas indolores de dar cabo da minha própria vida e por que eu sou incapaz de cuidar de um pé de manjericão.

eu levo ela pra jantar e ofereço um anel caro que brilha e reflete toda minha angústia. ela contempla o futuro enquanto eu tomo um longo gole de cerveja, ensaiando o que eu tenho a dizer e tropeçando nas palavras. ela chama o garçom de “meu querido” e pede o vinho mais caro do menu. ela bebe e não me deixa dizer o que eu preciso. eu vomito no banheiro em busca de coragem e morro afogado quinze vezes antes de voltar com um sorriso bobo no rosto. eu desconverso. falo sobre o clima. sobre empadas de camarão ou de frango o que você prefere, minha querida? meus olhos insanos sobrevoam o espaço buscando um alívio longe do olhar superior e auto suficiente da minha melancolia. peço a conta. passo no crédito. cartão recusado. me soco na coxa. passo outro cartão. aprovado. ela agradece. enfia o anel no dedo e sorri. me dá um beijo no rosto e passa as mãos em meus cabelos durante três segundos. meu pau endurece e eu me envergonho. pergunto se posso vê-la novamente amanhã. não. depois de amanhã. não. eu vejo ela ir embora rebolando em uma calça justa que marca sua calcinha. corro para o banheiro, vomito mais uma vez e me afogo novamente vinte e sete vezes enquanto visito o inferno solitário que é ser quem sou antes de bater uma punheta de trinta minutos em um banheiro para deficientes de um restaurante caro dos jardins.

me sinto miserável quando ela vai embora pra valer. me sinto miserável quando volto a me sentir bem. quando volto a me sentir eu mesmo. quando volto a ser victor carvalho e não mais vito beaumont. quando volto a ser o maior filho da puta do pedaço, aquele que ainda vai ser responsável por grandes feitos. mas hoje não. eu ligo um som triste e me isolo em fones de ouvido enquanto sinto o mundo ruir ao meu redor entre risadas e vozes mais altas que o necessário e o telefone que insiste em tocar. eu olho pra tela do meu computador e mordo meus lábios e me sinto um tesão do caralho. dizem que sou ridículo e eu morro mais uma vez. me beijam no rosto. eu quero paz, mas busco o caos dentro de mim. eu procuro pela minha autopiedade em uma sala repleta de troféus e grandes feitos que não são meus. eu chamo a responsabilidade quando sinto meus passos perderem o peso. eu busco por ela, a melancolia, nos olhares dos que eu amo e nas atitudes dos que desprezo. e eu sinto saudades e eu formulo frases e juras de amor em minha cabeça enquanto leio folhas de papel desperdiçadas pela ignorância e a banalidade da rotina. deposito minhas esperanças em um sorriso ofuscado pelo constrangimento do momento e pelo cair da noite que chega tarde demais.

invento a melancolia onde ela não existe. vale tudo quando você não se sente vivo. vale tudo quando você descobre que o que faz o seu coração bater mais forte é ela e seu calor e seu toque e sua baba que escorre pelo meu rosto. vale tudo quando morrer é o necessário para viver mais um dia. vale tudo pra estar com ela ao meu lado por mais um instante. eu rezo a deus para que alguém a perceba. eu rezo a deus para que alguém a veja com os mesmos olhos que eu. com um olhar apaixonado, ingênuo, imbecil. eu sinto um grito calar na minha garganta. “ELA EXISTE. ELA É LINDA. ELA É MINHA.”, eu grito em silêncio enquanto o dia se arrasta pelas frestas de persianas sem personalidades ou vontade própria.

dou baforadas em um cigarro de tédio e espero ela voltar pra mim. lembro de corações partidos e armários quebrados e garrafas de cerveja e do dia que o céu caiu sobre mim e de quando parte de mim morreu antes mesmo de nascer. eu procuro por ela por entre a miséria das minhas memórias e eu a encontro perdida se tocando para uma foto do cadáver do heath ledger em um beco escuro e sem vida. pergunto se ela faria tudo de novo. ela consente. ela continua uma puta de uma gostosa. diz que estava esperando por mim. diz que nunca deixou de ser minha. que nem mesmo por um dia deixou de me pertencer. eu pergunto se ela me aceita de volta e ela diz que sim. o dia ainda não acabou e novas possibilidades vêm dobrando a esquina enquanto eu chacoalho uma máquina de doces bradando pela porra dos meus três reais e causando tsunamis de emoções por merda nenhuma. nos damos as mãos e seguimos no caminho pra casa. deitamos juntos. fodemos até acordar os anjos e assustar os vizinhos com a desgraça de nosso amor imperfeito. ela dorme em meus braços com os seios nus em minha cara. de manhã ela ainda está lá. inerte. imóvel. indiferente. mais um dia e a minha melancolia ainda é só minha.

mais um dia e eu ainda sou o que um dia restou de mim.

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