Eu e meus 4 irmãos com Doutorado

Minha mãe e meu pai — nas altas esferas espirituais — já podem se orgulhar de terem cinco filhos PhDs. Minha irmã Vivi defendeu hoje sua tese de Doutorado no Programa de Psicologia da PUC-Rio. Não mais dias de Howard Wolowitz (personagem da série The Big Bang Theory que é sempre zoado pelos colegas por ter “só” mestrado, mesmo sendo astronauta).

O fato de ser de uma família com 5 irmãos Doutores gera muita piada. Colegas afirmam que almoço de domingo na nossa casa conta ponto no Lattes, que a gente pode entrar pro Guiness Book, tem gente que pergunta sobre o que a gente conversa (sobre o Big Brother, quando tá numa boa edição, a novela das nove, os memes do Facebook, os barracos familiares e, também, sobre alguma ideia de projeto ou artigo) e a minha mãe, antes de ter sua primeira neta, queria botar um anúncio no jornal: “troco PhD por neto”. Somos Humanas 4 x Exatas 1 e é claro que meu irmão de Exatas ri das nossas pesquisas, acha que a gente não tem objeto nem metodologia, e que ficamos 4 anos viajando em 300 páginas pra não ter nenhuma resposta conclusiva sobre o assunto. E a gente acha que ele ficou quatro anos regando planta em laboratório e escreveu uma tese que é quase do tamanho de um artigo nosso. Tudo isso, obviamente, é brincadeira. Eu tenho um orgulho imenso dos meus irmãos e o fato deles terem Doutorado é apenas o menor dos motivos.

Tenho mais orgulho ainda dos meus pais e se existe uma receita para cinco filhos doutores eu não sei. Nunca tive milhares de brinquedos como as crianças de hoje, não fui pra Disney com 15 anos, nem tive festa de vestido e clube. Nunca tivemos casa de campo ou de praia e meus pais só viajaram pro exterior quase no final da vida. O carro era trocado só quando não agüentava mais. No entanto, o dinheiro sempre foi infinito para cursos e livros. Meus pais nunca me perguntaram “pra que serve esse curso?” ou “isso dá dinheiro?”. Ao contrário, “mãe, tô pensando em fazer esse curso aqui…”… “Faz, sim, minha filha. Saber não ocupa lugar. Sempre é bom”. Se lembram do discurso do Steve Jobs que viralizou há um tempo atrás, pra uma turma em Stanford, “Connecting the dots”? Em certo momento ele diz como um curso de caligrafia feito na época da faculdade ajudou-o na criação de um design específico da Apple. Meus pais nunca me disseram o que eu deveria estudar. Só diziam que sim, eu tinha que estudar. Qualquer coisa, mas que de preferência fosse algo que eu gostasse. Que ter uma carreira era prioridade. Nunca depender dos outros. Ajudaram a mim e aos meus irmãos durante o tempo todo de graduação e mais até. Cresci numa casa cheia de livros, regida por valores Iluministas, ainda que meus pais fossem bastante religiosos. Sei que é pretensão minha achar que somos mais especiais que a média, mas somos.

Mas hoje o dia é só dela.

Fazer Doutorado não é molezinha. Eu sempre tive bolsa e nunca precisei, nem podia, ter outros empregos. Minha irmã fez Doutorado sendo coordenadora e professora de um curso de Psicologia, tendo um consultório cheio e ainda com uma matrícula no Estado de professora de Português. Sem contar a vida, que não para. Como eu digo pros meus alunos, conte sempre com a variável Murphy nas pesquisas. Tudo que não pode dar errado vai dar errado no pior momento possível da sua dissertação ou tese. Computadores e impressoras são que nem cachorro: sentem cheiro de medo e desespero. Sistema imunológico vai pras cucuias. Doenças vão aparecer em você, nas pessoas a sua volta e até no seu cachorro ou gato. Pânico, depressão, ansiedade, úlcera, (trombose, caxumba, difteria…) são freqüentes. Conheço pouca gente do meio acadêmico que passou tranquilinho por todo o processo. Essa gente é exceção e não regra. Mas o pulso, sabe como é, ainda pulsa. E você tem que continuar. Não é só com você que isso acontece. Acontece com quase todo mundo. Por isso se chama Vida. Se fosse fácil, se chamaria “Suruba com a Angelina Jolie e o Brad Pitt”. Apesar de todos os problemas e obstáculos, minha irmã conseguiu defender rigorosamente dentro do prazo. Aliás, é uma das primeiras da turma dela a defender. Mesmo achando que não ia conseguir, que não ia dar conta, que ia desistir, que não era pra ela, o tempo todo. Fica aí um incentivo pra quem tá na mesma luta.

Fico triste de não estar com ela em um momento como este, mas esse sentimento fica em parte amenizado por ter participado desse processo bem de perto. A tese da minha irmã é sobre mulheres que não tiveram filhos no casamento (seja por opção ou por alguma impossibilidade) e o que isso acarreta para a subjetividade, a constituição feminina e o relacionamento conjugal. Ler os depoimentos dessas mulheres, além de toda uma discussão e problematização acerca da maternidade e do feminino em um momento em que eu mesma tinha que lidar com as minhas questões sobre o assunto não foi muito fácil. Quer dizer, não que eu já não houvesse problematizado a exaustão o assunto, afinal, isso é o que acadêmicos de Humanas fazem: desnaturalizam conceitos, desconfiam do senso comum, quebram os paradigma tudim, além de miçanga. Ver naqueles discursos narrativas tão próximas a mim e a tantas amigas que não tiveram filhos, ou que quando quiseram ter descobriram que já era tarde, ou as que nunca tiveram muita certeza de nada, me fez ter ainda mais respeito por essas mulheres e suas escolhas. Perceber que nenhuma, ou poucas, decisões são tomadas cheias de certeza, que toda escolha implica em renúncia a tantas outras possibilidades e que toda história de vida é carregada não só de momentos de vitória, mas de frustração que precisam ser ressignificados a todo instante, é emocionante. É isso que faz da nossa área realmente Humana. A variável gente é complexa. E, não, não existe resposta conclusiva para a indagação da tese da minha irmã, pra tristeza do meu irmão de Exatas.

E pros que ficaram curiosos com a tese, aguardem o livro. ;)

Parabéns, Baru! Te amo, incondicionalmente, mais que tudo, hoje e sempre.

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