Quando chega a hora de desistir?

Esse ano, precisamente nesse mês de maio que se avizinha, faz sete anos que eu terminei o doutorado.

Também faz sete anos que eu tento concurso público para professor adjunto pra Universidades Federais.

Eu tentei sete concursos até hoje.

Sete fracassos.

Alguns relativos, outros absolutos.

Quer dizer, fui aprovada em alguns, mas como nesse tipo de concurso só há uma vaga, em geral, não adianta ser aprovada em segundo ou terceiro lugar (o que já aconteceu).

“Ah, às vezes eles chamam o segundo lugar. Beltrano entrou assim”.

Sempre havia gente mais preparada e/ou qualificada que eu. Nunca me senti injustiçada, apesar de já ter ouvido histórias (todo mundo conhece alguma história). Sempre tinha aquele candidato com um quê a mais. Não é essa a questão. Quase sempre eu dava aulas demais, o que me deixava com pouco tempo pra estudar. Que é a realidade de quase todos candidatos, também, então não serve de desculpa.

“Ah, não era exatamente o seu perfil. Essa não é exatamente a sua área”.

Já vi gente entrando em áreas nada a ver com a sua área de formação/estudos.

Já vi gente entrando no primeiro concurso.

Já vi gente que entrou sem ter um único artigo publicado em revista acadêmica.

Já vi de tudo.

Quase todo mundo que fez mestrado e doutorado comigo e que não desistiu da vida acadêmica já entrou.

E você fica se perguntando qual é a sua área. Qual é o seu perfil. Quando vai ter vaga pra ele. Quando vão chamar a sua senha. Quando você vai dar sorte.

A questão é: tem muito doutor no mercado e não vai ter vaga pra todo mundo. Não vai. Essa é uma realidade. Sempre vai ter alguém melhor do que você. Alguém que tinha o perfil. Era da área. Ou simplesmente deu uma sorte danada.

“Fulano passou pra Federal do Amapá”.

Puxa. Eu não queria ir pro Amapá. Com todo respeito ao pessoal do Amapá.

“Uma hora chega a sua vez”.

Também tentei seleções em programas de Pós-Graduação de excelência em suas áreas ou Centros de Pesquisa, até mesmo no exterior. Instituições que embora não tenham a estabilidade das públicas têm salários até melhores. Mesma coisa: segundo, terceiro lugar. Sempre sou boa. Vou bem. Mas tem um(a) Fulana(o) excelente. “Ah, às vezes eles chamam o segundo lugar. Beltrano entrou assim”. “Ah, não era exatamente o seu perfil. Essa não é exatamente a sua área”. “Uma hora chega a sua vez”.

As histórias que eu passei dariam um livro — tragicômico, é verdade. Uma peça de teatro. Um argumento pro Cinema. Uma ideia pra um reality show. Se alguém ia ler/comprar/assistir, aí já é outra história.

Claro que eu não fiquei parada e muitas coisas boas aconteceram também neste meio tempo, em termos profissionais. Dei aula em vários lugares, fiz várias pesquisas em diferentes locais, ganhei outras bolsas de pesquisa, como a que eu tenho agora, adquiri experiência em várias áreas, inclusive administrativa. Sem contar que sei dar aula pra qualquer curso, qualquer tamanho de turma, qualquer disciplina da área Humana. Essa é uma das poucas vantagens de “não ter um perfil”.

“Beltrano passou pra Federal do Amazonas”.

Puxa. Eu não queria ir pro Amazonas. Com todo respeito ao pessoal do Amazonas.

Sei que de fome nunca vou morrer. Sei que sempre haverá uma instituição privada precisando de professor. Sempre vai ter uma disciplina pra mim. Nem que seja lááááá não sei aonde, no Campus Novo Horizonte do Paraíso Belo, naquele horário de 21h às 23h, sem ajuda de custo, pra uma turma de primeiro período de 119 alunos, naquela disciplina unificada com os cursos de Direito, Administração, Engenharia, Medicina e RH, com algum título parecido com “Fundamentos sócio-ético-humanísticos aplicados I”.

Não é essa a questão.

A questão é que fica faltando “a cereja do bolo”. Que nem de longe é cereja, de fato, é só o início de uma carreira com outros perrengues e agruras. Mas quando você opta por uma carreira você faz planos, estabelece metas, pensa o que não quer estar fazendo na idade X, o que quer conquistar até a idade Y…ainda que os planos não saiam exatamente como a gente quer — nunca saem pra ninguém — e as coisas precisem ser revistas de tempos em tempos você tem um certo planejamento.

Que, na sétima tentativa, no sétimo ano, quando você vai fazer 40 anos, quando nasce seu filho, quando a vida adulta te esmaga contra a parede, coloca uma faca no seu pescoço e diz “é agora”, você começa a duvidar. Começa a balançar e pensar: será que é isso mesmo ou o Universo está te mandando um sinal de que “é cilada, Bino” e você está tampando os ouvidos e fazendo lálálálá há sete anos?

Será que não é a hora de tentar um plano B? Que no meu caso já é D, aliás…

Ou será que é hora de retornar ao plano AAA, aquele que você nunca tentou porque nunca achou que conseguiria, afinal era muito difícil, aí você tentou todos os outros planos. Que eram mais fáceis. E você se encontra…aqui. Sem conseguir. O que era pra ser “o mais fácil”, o que tinha mais futuro.

Talvez eu tenha conseguido coisas muito boas rápido demais. Passei relativamente nova pro mestrado, em terceiro lugar e emendei com um Doutorado em uma área bem difícil, onde eu não era conhecida, onde eu passei em segundo. Achei que as coisas seriam fáceis. Que eu levava jeito. Preciso lembrar e contabilizar tudo que eu tenho e consegui. Sei que esses sentimentos são cíclicos e sei porque eles vieram agora e que eles também vão passar.

Será que é hora de ir pra Islândia abrir minha barraquinha de churros?

Será que eu deveria vender miçanga na praia? Mas eu não suporto calor…

Existem outras coisas na vida além da carreira. Ainda que pra você, desde muito cedo, isso tenha sido o mais importante. Talvez seja hora de rever prioridades.

“Ah, não era exatamente o seu perfil. Essa não é exatamente a sua área”. “Uma hora chega a sua vez”.

Devia ter tentado concurso pro Itamaraty…nesse momento eu poderia estar na Coreia do Norte, dando início à Terceira Guerra Mundial, ou sendo morta em algum atentado terrorista de algum grupo fundamentalista no Oriente Médio, mas definitivamente, não teria esse tipo de problema.

Será que devo continuar tentando?

Até quando eu aguento?

Pra quê?

“Ah, às vezes eles chamam o segundo lugar”.

“Beltrano entrou assim”.

“Ah, não era exatamente o seu perfil”.

“Essa não é exatamente a sua área”.

“Federal do Acre”

“Uma hora

chega

a sua vez”

Uma hora chega.

Chega.

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