Quam Primum

Foto: Sebastião Salgado

Vivemos como imortais e acreditamos que nossas buscas são mortais. Na verdade, deveria ser o contrário. Não se engane: nossas buscas não tem fim. Cada conquista traz consigo a próxima promessa e são justamente os reflexos deste movimento que nos provocam angústias e trazem a sensação de vagarmos pela vida sem saber dela usufruir.

Somos mestres em acreditar. Fazemos disto nossa defesa pessoal. Dor, ansiedade, medo, aflição, chame do que você quiser, nós morremos acreditando que estes tem um fim. Assim seguimos, buscando uma espécie de ataraxia que nem sequer sabemos o por quê. Não adianta: por mais que estejamos perto de dominar estes sentimentos, a tranquilidade (grande recompensa), estará sempre na esquina seguinte.

Procurar calmaria e a certeza de que não sofreremos mais, acabando com nossas angústias, na verdade, nos coloca em risco. Nos tornamos espectadores de uma vida breve. É justamente aqui onde realmente podemos despertar, e incorporar, um detalhe sutil: não somos privados, mas pródigos da vida. Diferente do que as pessoas dizem, a vida não é curta, nós a encurtamos. A vida merece ser ampliada!

Não aceitar a dor, os problemas e a angústia é seguir caminhando em círculos. Lutar e achar que existe uma linha de chegada, em que tudo estará resolvido, é apenas viver uma parte pequena de tudo. Nossas aflições são necessárias, devemos apreciá-las de perto. Elas são combustível, dosagens necessárias para interpretarmos o mundo que nos cerca.

De que outra forma podemos entender por que somos facilmente quebrados e jogados ao chão? Temos que nos acostumar a viajar com este passageiro ao nosso lado. Este que entende e absorve a dor como se fosse droga. Este que nos ensina e prevê como um oráculo: “pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo restante não é vida, mas somente o tempo”.

Esse vício sufoca os homens andando à sua volta, não permitindo levantar, nem erguer os olhos para distinguir a verdade. Nós permanecemos imersos, presos. Achamos difícil encontrar valor nas coisas pequenas, quando as coisas mais belas nunca pedem por atenção. Elas nos escapam pelos dedos enquanto estamos ocupados em passar a linha de chegada, em resolver as aflições, acumulando bens materiais para calar dores. Quanto engano! Quão rasos podemos ser? Atolamos nossa saúde emocional em riquezas para depois servir como Foie Gras a um psicólogo qualquer.

Nós sempre seremos duplos e é justamente isso que traz os conflitos, provocam dor, melancolia e ansiedade. É a premissa para se distanciar da caminhada em círculo e despertar para uma vida plena. Precisamos entender que a luta nunca termina, que a jornada não acaba e que o ócio e a inércia são tão irreais quanto a vontade de fazê-los presentes. Enquanto nosso corpo estiver animado, enquanto houver folego em nosso peito, serão presentes os momentos de decisão, os momentos de tensão, os momentos de alegria, os momentos de pesar. Eles nos calejam, fortalecem, e apuram nossos escudos. Portanto, o que muda é nossa postura em relação aos acontecimentos. Somos incapazes de nos apossar do tempo, de retê-lo ou de fazer demorar as coisas que nos valem a pena. O que muda é nosso entendimento de que tudo o que temos nos é breve, nos é supérfluo e substituível.

A vida que vale a pena acontece nos detalhes ao redor, no quintal da sua casa, no botão de flor no vaso do canto da sala, na sujeira do sapato que entrega uma caminhada com a pessoa amada ou até na caixa de fósforo vazia no meio da calçada. Um fotógrafo de qualidade não se destaca apenas pela precisão, composição ou pela rapidez no clique. Antes que qualquer coisa ele se destaca por sua capacidade de observar além. Para os lados, para trás, do lado inverso. Ele faz da vida um conjunto de coisas que estão além de nós. Ele nos amplia em nosso pequeno papel neste plano comum com tantas pequenas coisas incomuns.

Cada objeto carrega uma norma. Quem traz opções de mudança, novas perspectivas, novos conceitos somos nós. Colocar o fim do sofrimento e do sentimento como ponto a ser combatido é trazer inquietude, sufocamento, invariavelmente. Não se muda certas coisas. Elas estão ali. Elas não acabam e nem se vão. Você determina como ocultá-las, como aceitá-las, como esquecê-las e deixá-las de lado por um breve tempo. É você que determina seus desdobramentos, sua intensidade. Se pensamos muito nos fatos e circunstâncias, deixamos de lado a simplicidade. Deixamos de viver!

Não há vida mais bela que a de um homem intencionalmente despreocupado, que aceita os fatos sem exultar quando estes vão bem e sem mergulhar no desespero quando vão mal. Que sabe o quão indolor pode ser a jornada que construímos para si próprio.