Dor, medo e amor, amor, medo e dor

Naqueles dias, não importava se chovia. Tudo bem se fosse preciso caminhar, desprotegido, sob a chuva. Hoje, há muita angústia. Muita necessidade de controle. Isso acontece por causa do medo. Você vence determinados medos, adquire outros novos. Os medos que você vence costumam ser os mais antigos. Os que mais te aterrorizavam. Os que te faziam chorar. Os medos que você adquire são entretanto os mais insuspeitos. Você tinha medo de gente e agora não tem mais. Em compensação, não tinha medo da chuva e agora tem.

Afinal por que você tinha medo de gente? Ora, é claro que tinha, afinal elas eram maiores do que você. Hoje, você é o maior de todos. Você não teme nenhum ataque. Com palavras você se defende bem. E socos não podem mais te ferir. Experimentem só me socar. Experimentem quebrar ossos do meu corpo. Sabe o que vai acontecer? A dor não me atinge mais. Depois que você compreende a natureza íntima da dor, ela não mais pode te atingir. Se você prestar atenção, a dor não passa de uma sensação como outra qualquer. Se você não a teme, ela não pode fazer nada contra você. Não há dor alguma capaz de me atingir, exceto a dor prolongada. A dor não fere, mas cansa. Ela exaure suas forças, e em algum momento você começa a chorar, você não sente mais vontade de estar vivo, você vai sofrer por sentir que passou a viver num mundo sem paz.

Como eu me tornei forte? Sofrendo. Chega um momento em que você é levado a algum lugar além. Você não mais se lamenta por si. Só pelos outros. Você observa e lamenta. Se pudesse, você lhes daria um pouco da sua força. Se fosse possível.

Você vê que eles apenas não enxergam o mesmo que você. Você pode consolá-los, você pode dizer “Acalme-se, eu estarei sempre aqui” (e estará), mas não pode lhes dar sua própria força. Nunca irá convencê-los de que podem estar além, pois o que sentem é medo, não dor. Você jamais tornará a chorar. Você não conhecerá mais o medo. Você será como um deus. Estará permanentemente preparado para morrer. E lamentará pelos outros.

Se você pudesse, apenas os traria para perto de si. Você acreditava que podia ensiná-los, até ver que não. Porque não sofreram o suficiente, por si — não o suficiente para perder o medo.

Você ainda crê que há algo digno de estima. Então sentirá dor. Você acredita que há algo, fora de si, capaz de lhe fazer bem, algo que é preciso manter, algo cuja ausência lhe tornará menos satisfeito. Até então, você sentirá medo. E dor.

Você possui algum orgulho próprio. Você tem fé no valor que confere a si mesmo. Você ainda é um medroso chorão.

Quando você aprender que não há nada nesse mundo digno de apreço, nada nesse mundo capaz de te proteger, então você não mais sentirá medo. E a dor para você será apenas como uma luz muito forte, uma superfície que arde sem ferir. A náusea será para você mais incômoda que a dor.

Por hora você nem mesmo é capaz de estar na presença de alguém sofrendo, imagine assistir ao próprio corpo a arder inteiro em chamas. Você não está preparado para morrer, nem está preparado para perder. Por isso você sofre.

Agora imaginem alguém. A única coisa que conseguiu preservar foi a integridade de seu corpo. Ele é, entretanto, amaldiçoado em toda parte. Quando passa, todos apontam e dizem: “Aí vai o maldito, aí vai o aborto, aí vai o erro”. Tanto, e por tanto tempo, que aprendeu a manter a integridade sob qualquer situação, em qualquer lugar. Ele não curva a coluna enquanto lhe denigrem, enquanto o acusam, enquanto o condenam, e nem altera a respiração. Ele ascendeu. De alguma maneira, todos aprenderam que não podem mais atingi-lo. Tentaram feri-lo. Tentaram matá-lo. Tentaram exterminá-lo. Só conseguiram torná-lo mais poderoso, mais resistente.

Que tipo de mulher mereceria tal homem? A mais ardente e calorosa. Uma mulher negra e escarlate. A mais mentirosa, a mais sádica. Haveria tal mulher? Aquela que fosse capaz de feri-lo, quando ele então sorriria. Quem, entre os dois, seria merecedor de maior grandeza?

Laylah é esta mulher. Ela foi um dia uma criança despossuída, tornou-se condessa, por fim imperatriz. Apenas por seus próprios méritos. Como chamamos o que há entre mim e Laylah? Amor? Não existe amor para homem ou mulher dessa natureza. Laylah é para mim um desafio, a única esperança de alguma satisfação. Da mesma forma, Laylah não deseja outra coisa de mim que não a possibilidade de sofrer. Laylah está entediada. Ela só deseja alguém que a faça ficar de novo ligada. Laylah quer ser pisada. Desprezada. Laylah clama por vida.

Mas qual o futuro desse amor, se é que se pode chamá-lo assim?

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