Sobre despertadores, traseiros, aulas e outras coisas
Há três dias, na terça passada, era melhor acordar às 6:30. Acordei às 6:40, mas sem qualquer vontade de me arrumar e sair. Lembrei imediatamente dos tempos de emprego com expediente fixo. Era aquela mesma sensação, a cada manhã fudida, uma após outra, eternamente. Era como um buraco negro. Eu não poderia voltar a viver daquela forma. É infeliz demais. Levantei-me e fui tomar banho.
Sou mais sensível ao frio assim que acordo. Todo mundo deve ser. Achei a água fria. Fui regulando a temperatura da ducha e só me satisfiz basicamente quando atingi o nível água escaldante. Tanto que nem mesmo era possível ficar parado embaixo do chuveiro. Era preciso mover-me constantemente, para impedir que a água queimasse minha pele ao atingi-la seguidamente no mesmo ponto. Foi meu primeiro prazer aquele dia, a sensação que me provocava a água muito quente ao atingir meu corpo. Quente como nunca. Eu não queria sair do banho.
Agora sobre a aula. Há um carinha na turma que é o melhor de todos. Ele tem o corpo muito rijo e gosta de falar. Eu já tinha notado que nenhum dos outros alunos é páreo pra ele. Ele é muito esperto. Nenhum dos outros o acompanha. Ele é do tipo inquieto. Sorri muito, fala alto, e é engraçado. Eu andava interessado nele há um tempo. Ele sentou do meu lado e não perdia uma oportunidade sequer de falar, comigo ou com quem quer que fosse. Enfim nós tínhamos um ao outro. Eu era o único ali capaz de compreendê-lo. Alguém com quem manter um diálogo perspicaz. Todos os outros sentem muito medo. Mantêm a guarda alta. Uns menos, outros mais. Mas todos com medo no olhar. Atentos à própria imagem, muito preocupados consigo mesmos. Algumas garotas levantavam de seus lugares, saíam da sala, e voltavam depois de um tempo. Sempre que passava por nós um traseiro interessante, ficávamos ambos a acompanhá-lo fixamente. Ele conseguia me superar, a ponto de me deixar constrangido e me fazer virar primeiro. Ele não apenas mirava aqueles traseiros. Ele ia até o fim. Ele coçava o queixo, sem o menor pudor, enquanto eles desfilavam. Continuava a olhar fixamente pra eles mesmo depois de sentados. Nós nos cutucávamos com os cotovelos e, no mais ligeiro e imperceptível gesto ou expressão da mais absoluta cumplicidade, trocávamos impressões sobre aqueles belos rabos. Enfim um adversário à altura. Nós nos entendemos.
A garota do sorriso demorado chegou atrasada e sentou num lugar qualquer, mas no intervalo veio sentar bem do meu lado. Nos falamos duas ou três vezes rapidamente.
Isso tudo já faz três dias. O despertar de hoje foi muito diferente. Ontem fui dormir bem tarde. Embora tivesse programado o despertador para cinco horários diferentes, separados entre si por intervalos de dez minutos, só acordei no primeiro deles, voltando imediatamente a dormir. Quando enfim abri os olhos, estava a meia hora da aula, com o despertador completamente desligado, e diante de uma grande decisão: levantar de vez ou desistir de tudo por mais três ou quatro boas horas de sono. “Não posso ter mais faltas”, pensei. E levantei. Eu estava tão grogue que não podia pensar em nada. Não lembrei de nada. Não pensei nas manhãs fudidas dos tempos de emprego formal. Só entrei no chuveiro.
Já estava pelo meio do banho quando lembrei de uma coisa: minha ex nunca me amou. A única mulher a quem amei de verdade nunca me amou. As outras nunca significaram nada. Aquilo foi um golpe certeiro no que restava da minha força de vontade. Quis desistir de pegar aquele ônibus fudido pra mesmo assim chegar de todo jeito atrasado naquela porra de aula, foda-se. Respirei fundo e conversei um minuto comigo mesmo. “Qual é, meu chapa, vai se deixar vencer assim? Então você é o quê? Vai ficar aí se lamentando até quando? Vê se deixa de ser a porra de um viadinho.” Foda-se, me vesti e saí. Lavei a boca, mas nem me olhei no espelho.
Fui até a banca de revistas mais próxima do ponto de ônibus pra arrumar alguns cigarros. Nessa hora, vi meu ônibus passando. Ele precisou parar num semáforo e ficou ali bem diante de mim. Era distante do ponto regular, mas, já que ele estava parado, eu bem podia tentar fazer o motorista me abrir a porta ali mesmo. Provavelmente conseguiria. Um outro só viria dali a 20 minutos ou meia hora. Mas foda-se, eu ia fumar meu primeiro cigarro do dia em paz. Dez minutos ou meia hora atrasado, tanto faz.
A ex não me saía da cabeça. É foda. Fazia uns dias que isso não acontecia. E a única coisa que eu posso realmente fazer em relação a isso agora é esquecer. Esquecer que ainda a amo exatamente do mesmo jeito. Esquecer que não quero mais vê-la, que sequer consigo imaginar qualquer bom momento a mais junto a ela. Pois não tenho mais nada a lhe dar. Não admitiria. Foram mais ou menos dois meses paradisíacos, oníricos, seguidos de uma coleção de muitos outros desastrosos. Eu tentava dar àquilo um bom e tranquilo fim, mas ela nunca deixava de vir, e a cada vez vinha pior. Penso que ela gostava realmente da minha companhia às vezes, apenas não dava a ela tanta importância.
Esses dias eu assisti “A Bela e A Fera”. Não o original da Disney, mas uma produção de 2014. Um belo filme, com diálogos realmente bem feitos, além de cenários sensacionais. De cara você reconhece quando sabem o que estão fazendo. Fiquei a pensar umas coisas, especialmente em como deve ser difícil para uma mulher amar um homem. Nós amamos vocês mulheres porque vocês são belas e delicadas, de uma graça cheia de complexidades, mas como nos amar, a nós, homens? Nós somos grosseiros e estúpidos, em todos os sentidos. Mulheres são fúteis, mas antes também o fôssemos, em vez de completos bobalhões.
Quando cheguei, a aula já tinha começado há uma boa meia hora. Vi duas cadeiras vagas, uma ao lado da outra. Havia uma mochila, no chão, apoiada numa delas. Por isso sentei na outra. Não deu 10 minutos, do nada uma garota levantou-se, caminhou com dificuldade em minha direção entre as cadeiras ocupadas, desviando-se cuidadosamente delas, aproximou-se e finalmente sentou do meu lado. A mochila era dela. Era a mesma garota que noutra aula passou um tempo mexendo na parte de baixo da minha cadeira (onde fica o suporte para livros) com os pés. Naquele outro dia ela usava um vestido. Hoje, um short preto bem curto. Havia uma outra garota sentada bem à frente dela, exatamente na mesma posição e do mesmo jeito que eu sentava diante dela aquele dia. Reparei bem, e ela não mexeu uma vez sequer na parte de baixo da cadeira da outra garota. Ela tem os cabelos muitos longos, gostava muito de mexer neles, jogá-los vigorosamente pra um lado e outro, e enquanto fazia isso deixou que resvalassem em mim por duas ou três vezes. “Não é possível”, eu pensava, “que, com um cabelo desse tamanho, jogando-o assim de um lado a outro, ela não perceba que está praticamente a me chicotear com ele.” Numa oportunidade ela olhou pra mim e sorriu. Noutras, umas duas ou três vezes, virava o rosto pro meu lado mas sem me olhar diretamente, como se estivesse a olhar para algo mais adiante, mesmo que naquela direção além de mim restasse apenas uma parede vazia. Num dado momento foi muito sensual quando ela sentou com o tronco apoiado sobre apenas uma das nádegas, tendo as pernas bem unidas e apertadas uma à outra. Perdi talvez um minuto imaginando como seria enfiar a mão bem ali no meio.
No outro extremo da sala estava um carinha sentado entre duas garotas. Num momento ele estava abraçado a uma delas. Noutro, à outra. Invejei-o e ao mesmo tempo não. Devia estar gostoso, mas daquele jeito ele parecia precisar de uma mamãezinha. No lugar dele eu partiria logo pro tudo ou nada. Ele tinha a expressão de um garotinho inofensivo.
Ao final da aula fiquei um bom tempo conversando com o professor sobre HQs antigas. Há dias de aula que me animam. Outros, me põem pra baixo. Hoje valeu o segundo caso. “Só quero sair daqui”, pensava, enquanto atravessava a rua em direção ao ponto de ônibus, fumando um cigarro. Cheguei em casa e dei uma bela cagada. Depois, vim cagar palavras. Um dia-a-dia como esse é mesmo um negócio deprimente.