Onde está meu humanismo

Por todo lado há humanos. Mas a humanidade onde está?

Eu não estou querendo dizer que as pessoas não sejam dignas. Muito longe disso. Mas é que o conceito de “humanidade” é abstrato.

É como o conceito de amor. O amor não existe, a humanidade não existe. O amor é um conjunto de tantas coisas misturadas em combinações tão diversas, coisas boas e às vezes algumas ruins, e é tanta coisa que a gente chama de amor, que não dá. É abstrato. Eu percebi ser assim faz tempo.

O mesmo se dá com o que se chama de “humanidade”.

Eu tenho falado aqui de coisas como o egoísmo primordial que nos une a todos. Eu devo continuar a falar dessas coisas. Pois são coisas que me inquietam.

Agora eu quero falar sobre humanismo.

Há um determinado tipo de “amor pela humanidade” (os dois termos que discutimos, reunidos numa só expressão) que só me causa antipatia. Não dá pra ver o ser humano (nenhum homem ou mulher) como um bichinho digno de simpatia, cuidado e carinho.

Eu sinto um cheiro que não me agrada quando topo com alguma daquelas pessoas sempre preocupadas com qualquer tipo de causa humanitária.

Porque não dá.

Porque eu me sinto como parte de uma sociedade em conflito. Um mundo inteiro em conflito. Uma humanidade em conflito. E eu sinto o tempo todo, em todo lugar, em quase toda conversa, como se subliminarmente alguém estivesse sempre a dizer “escolha seu lado”. E olha, eu vou dizer, se tem uma coisa da qual eu não fujo é de escolher um lado.

Não adianta, eu não consigo olhar pra ninguém que passe por qualquer situação difícil, ou pra nenhum grupo de pessoas, por pior que seja sua condição, de forma a permitir que isso desperte em mim apenas um cândido espírito protetor, ou acolhedor, etc.

Eu estou sempre a ver conflitos. Pessoas em conflitos umas com as outras. A humanidade em conflito com a natureza, ou com sua própria natureza. Eu vou proteger a humanidade de quem? Dela mesma? Quem está de que lado? Que lado?

Falando assim, até parece que eu estou a renegar todo e qualquer tipo de humanismo, ou que não considere nobre nenhum ideal de ajuda ao próximo ou coisas assim. Não é o caso.

É que a humanidade não é algo que eu consiga admirar de uma maneira simples, mas sim de uma maneira complexa.

Eu pensei muito sobre isso. Os dramas humanos me encantam. O amor também me encanta. Alguém que luta por um ideal me encanta. A defesa violenta da própria liberdade, ou da dignidade (humana) me encanta. Muitas lutas são justas, me despertam paixões.

Os pequenos dramas humanos também me preocupam. Eu tomo as dores. Eu prezo por demais a generosidade, a gentileza. Eu me revolto com todas as pequenas injustiças cotidianas que vejo quase todo mundo sofrer, porque a vida é dura. As liberdades individuais são o que eu considero de mais sagrado, a todo momento sob ataque dos que querem possuir as suas e as dos demais. A noção de que estamos todos ligados por nossa humanidade é a coisa mais clara do mundo pra mim.

O que não me agrada é a defesa do que quer que exista de humano quando essa defesa é passiva, quando ela só inclui sorrisos, quando ela foge de conflitos.

Eu quero ver porrada. Não adianta.

Eu não renego meu humanismo, ele está comigo. Eu só não gosto de coisas bonitinhas. A humanidade é violenta, o mundo é violento.

Eu quero ver heroísmo. Eu quero ver sacrifício.

Eu quero ver a beleza da humanidade em todo seu resplendor, quando alguém faz de si mesmo um instrumento a serviço de tornar o mundo um lugar mais belo, ou mais justo.

Eu não quero manifestações a demonstrar como o mundo ou a humanidade são bonitinhos, porque não são.

A beleza do mundo é sagrada, mas é violenta. Não a trate como um bibelô.

Você pode divulgar quantas campanhas humanitárias você quiser, mas se isso é tudo que você pode fazer, então você é provavelmente só um babaca. Seu ato será nobre quando você sentir a necessidade irrecusável de ceder seu corpo, mesmo que por apenas um minuto, no empenho de defendê-las. Quando você sentir a paixão que isso exige, quando você estiver disposto a se bater em conflito, a estar você mesmo no centro do conflito por trás de tudo.

Sabe o que é? Você faria muito melhor se, em vez de fingir se preocupar com tanta coisa, se preocupasse em fazer de si mesmo algo melhor. Já seria mais que o suficiente. Só assim você vai fazer a diferença, vai por mim. E poderia colocar muito mais em movimento. Se você lutasse suas próprias lutas em vez de fugir delas, talvez você inspirasse outras pessoas. Não há conflito suficiente em volta? Olhe à sua volta. Você está satisfeito com o que está acontecendo, com o que você pode ver? Comece por si mesmo. Então vá até as pessoas, se envolva com elas.

Você não é tão humanista? Me mostre você como eu devo fazer. Vá na frente, que eu te sigo.

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