A gente se vê por aí

O bom filho à casa torna, Brasil

(Foto: Pixabay)

Por vezes, é necessário deixar tudo para trás. A mudança, física, emocional, mental, seja ela qual for, se faz obrigatória em certos momentos, dependendo dos objetivos estipulados para um determinado período de nossas vidas. Comigo, especificamente, a transformação teve a ver com a decisão de permanecer longe de casa por sete meses para estudar inglês em Dublin, na Irlanda. Os sete meses mais intensos de toda minha vida, sem dúvida alguma.

Me lembro fotograficamente daquele 2 de abril. Tudo começou, na verdade, na noite do dia 1º, quando ouvia, de maneira inédita, o barulho dos motores do Iberia 2480, operado pela LaTAM, ligados e prontos para partir em direção a Madri. A aeronave acelerara, recolhera os pneus e, rapidamente, tomava o céu de Guarulhos. Uma vista e sensação inesquecível a quem nunca havia passado por aquilo antes. Ali, pouco a pouco, percebia que não tinha mais volta.

Não dormi quase nada até chegar à capital espanhola. A ansiedade era frenética. Lá, me recordo de ter feito o primeiro contato com minha mãe, avisando a ela que tudo estava bem. Chegara, então, o momento de seguir em direção à Ilha Esmeralda. “10 minutes for landing”, a frase que, não tão facilmente compreendida como hoje, avisava: ei, meu garoto, é hora de aproveitar essa experiência extraordinária.

E aproveitei. Mergulhei no inglês ao máximo, conheci outras culturas graças às amizades feitas com pessoas de outras nacionalidades, pude pôr os pés em 11 países diferentes, me tornei mais forte, mais maduro. Chorei e sorri. Tive sabores e dissabores, não necessariamente no sentido literal, mas sou grato a tudo e todos. Fui teimoso quando achei que deveria ser em relação a certas decisões. Porém, sem arrependimentos.

Dias atrás li um texto marcante. Soa como um disparo, mas faz total sentido: “Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue com ou sem você por perto”. E realmente, pude perceber que, de fato, somos descartáveis, completamente substituíveis.

É possível contabilizar as pessoas que se importam conosco de verdade… Em dedos de duas, três e, quem sabe, com sorte, quatro mãos, se tiver sorte. Longe de casa, um simples “Oi, tudo bem? Está precisando conversar sobre algo?” pode evidenciar quem são elas. Ao contrário dos “preocupados” que só te chamam no intuito de saber “como são as festas por aí? E as mulheres, homens, bonitas (os)? E as bebidas? Só curtição?”.

E não é que, além da evolução fora de casa, ir embora também serve para nos mostrar quem devemos valorizar? Um pacote fantástico. No taltexto, também constava:

“(…) Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar — e se voltar — vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião”.

E o meu tempo de enxergar as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião (mas não somente de lá), está chegando. Para o Medium, este provavelmente será o último texto escrito daqui da Irlanda. Nesta terça-feira (31), à tarde, chegará o momento de deixar a terra dos Leprechauns e seguir em direção a solo verde-amarelo. Repleto de vontade de ver a família, os amigos de verdade. Tomado pela vontade de voltar a trabalhar como jornalista (#ajuda, Luciano!). Cheio de vontade de compartilhar ao máximo as experiências fantásticas. Tô voltando, Brasil! A gente se vê por aí.