Mais que dinheiro, ganhei experiência de vida ao som de Coldplay

Outro momento inesquecível pra colocar na bagagem e gravar na memória durante a jornada em Dublin

Recordação literalmente recolhida durante a apresentação da banda britânica. (Foto: Arquivo Pessoal)

Experiência. Conforme dois dos verbetes dispostos no Aurélio, “conhecimento adquirido por prática, estudos, observação etc”; “homem de experiência: homem conhecedor das coisas da vida”. Acumulo várias ao longo dos meus 22 anos, mas nada, nada, nada parecido com a vivida em 8 de julho de 2017. Afirmo, sem titubear, que foi uma das mais engrandecedoras, por n motivos que tentarei explicar nos parágrafos abaixo.

Quem me acompanha no Instagram, pôde ver nos stories alguns vídeos que postei durante o show do Coldplay, banda britânica que dispensa apresentações. Algumas pessoas me mandaram mensagens como: “que sortudo, hein!”; “que inveja!”; e assim por diante. Boa parte, porém, provavelmente não imaginava que eu estava lá a trabalho — o primeiro aqui na Irlanda, inclusive. Os registros foram feitos durante alguns preciosos minutos de break.

Duas e quinze da tarde. Hora de colocar a calça jeans preta e o tênis da mesma cor — itens requisitados pela contratante do trabalho. Meia hora depois, eu e outros amigos brasileiros estávamos na fila pra pegar o estiloso uniforme, composto por uma polo vermelha e uma jaqueta azul. Ryans Cleaning é o nome da companhia que nos contratou. Agora, você já sabe qual era a minha (nossa) função por lá: compor a equipe de limpeza do evento.

Chegamos à outra fila. Desta vez, eles iriam designar a função de cada um. Estávamos entre os últimos do “exército” vermelho-azul. Admito que, muitas vezes, me senti totalmente sem sorte em algumas situações aqui em Dublin. Finalmente foi diferente: a maioria do grupo de conhecidos com o qual eu estava — exceto a Bruna (ohhh, judiação!) — ficou responsável por coletar o lixo da pista, no gramado, pertinho do palco. A sorte à qual me refiro diz respeito à posição privilegiada do trabalho, o que não significa ter sido fácil.

Luvas e littlepicker (o que a gente usa pra pegar garrafas, bitucas de cigarro, sujeira em geral) apostos. A jornada começara. Antes de iniciar o trabalho, confesso que pensei muito em minha avó, Nair, que com mais de 60 anos continua limpando, com muito esmero, o banco, em Guareí-SP. Você foi minha inspiração, vó! Ainda assim, não seria hipócrita de dizer o contrário: embora zele por limpeza, acredito que nunca dei o devido valor a quem faz esse trabalho, quem o tem como sustento. É aquela coisa de precisar sentir na pele pra, realmente, valorizar de verdade.

O que me chamou muita atenção foi o comportamento do público presente. Segurando os sacos de lixo, muitas pessoas vinham em direção pra jogar algo — até chiclete! — e ainda agradeciam. Perdi as contas de quantos “cheers” e “thanks” pude ouvir. A educação dos espectadores foi quase que regra. Apenas um homem, certamente com bastante álcool corpo adentro, faltou com respeito quando pediu o plástico e simulou fazer o número 2. Ossos do ofício, o que não apaga a cordialidade — houve até quem “convidasse” pra pular, sorrir e curtir o show. Fantástico!

No intervalo de trabalho foi possível acompanhar o show de verdade, mesmo já #mortocomfarofa(Foto: Arquivo Pessoal)

Além de recolher o lixo da pista, o nosso supervisor no show pediu que eu e o Rafa (meu roommate e parça dos perrengues na capital da Ilha Esmeralda) levássemos os contêineres cheios do outro lado do estádio. Mais hardwork braçal e que exigia uma boa habilidade na direção, em meio à multidão.

Depois de boas horas de trabalho, perto das 23h, tivemos um break de 30 minutos que usamos para aproveitar o show. Mais um momento de sorte: justo no período em que o vocalista Chris Martin chamou um cadeirante para subir ao palco. O rapaz, em seguida, tocou sua gaita enquanto Martin improvisava alguns versos. Completamente indescritível, de arrepiar, assim como os efeitos especiais usados durante a apresentação. A gente só não deu valor aos efeitos depois do show, pois tivemos que limpar os confetes e estrelas lançados ao ar. Minhas costas e panturrilha ainda lembram disso, por ter agachado como nunca.

O relógio marcava 00h15 quando pudemos, finalmente, ouvir de um dos supervisores: “we finished our work”. O pessoal, exausto, comemorou como gol em final de Copa do Mundo. Voltei pra casa, tomei uma ducha e dormi em menos de cinco minutos. Como jamais poderia imaginar, me via realizado e com a sensação de dever cumprido, mesmo totalmente distante da área em que me formei. Foi mais um dia inesquecível pra colocar na bagagem e gravar na memória. Experiência de vida não se compra. Só me resta agradecer, agradecer, agradecer.

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