Flaubert, o frentista

Google Maps

(Texto escrito em junho de 2015)

Hoje, conheci Flaubert. Não o escritor francês: o Flaubert que conheci é um introvertido mas sempre simpático frentista em um posto de gasolina ali em Canoas. Sim, Flaubert é o haitiano que ficou conhecido por ser vítima de um horroroso ato de xenofobia e racismo há algumas semanas atrás, divulgado em vídeo pelo próprio agressor na internet. Conheci Flaubert porque André, que trabalha no jornal O Estado de São Paulo, veio a Canoas especialmente para fazer uma matéria com ele, e precisava de alguém para ajudar na comunicação em francês, já que Flaubert ainda domina pouquíssimo da língua portuguesa.


Nas últimas semanas, tenho enfrentado fortes crises de ansiedade em função das grandes mudanças que vêm uma sobre a outra surgindo em minha vida. No alto de meus 31 anos, idade em que eu, no passado, me imaginei um homem maduro, organizado, até sereno, desenvolvi uma gastrite nervosa que vem piorando. Flaubert, um rapaz de 25 anos, veio do Haiti para tentar melhorar de vida. Vida sua, da esposa e dos dois filhos que, lá de longe, aguardam algum dinheiro a ser enviado. Na conversa que tivemos, Flaubert disse que uma das coisas que mais alteraram sua forma de ver o mundo após a saída de seu país foi a grande carga de responsabilidades pelas quais vem passando. Cansaço e incerteza sobre o futuro seu e de sua família, de seu país. Em meio a isso tudo, tanta dificuldade que minha gastrite com filtro jamais poderia encarar, ele ainda foi vítima de um ato xenófobo, racista, covarde. Flaubert diz estar com muito medo, mediu bastante suas respostas por questões de segurança. A insegurança sobre o seu futuro se ampliou para a insegurança em um país que vive uma crise ideológica e política, choques de opiniões que nem nós, brasileiros, esperávamos poder dar espaço a um ato de violência tão crítico, tão triste, tão vergonhoso.

Pisei naquele posto de gasolina com vergonha. As pessoas estão vindo falar com Flaubert para lhe pedir desculpas. Aquele homem xenófobo que o agrediu não representa o Brasil. Flaubert é grato pela gentileza, tem um sorriso doce misto de nervoso e assustado, dizendo “aquilo foi bizarro!”, um “WTF??”. Sabe quando a gente tecla “WTF??”, surpresos e ao mesmo tempo achando engraçado? Assim ele também reage sobre o caso. Mas a parte surpresa na expressão dele tem um fundo absurdamente triste. E a parte engraçada serve apenas para tentar deixar tudo mais leve, respirar e sorrir um pouco. Ele também sorriu em algumas das vezes que disse estar com medo. Em outras, a maioria, não.

Saí daquele posto com vergonha e medo. Por mais que tenhamos tentado deixar claro para Flaubert que o ato daquele infeliz que o agrediu representa uma ínfima minoria de nossa opinião pública, que todos estamos com ele, que desejamos fazer o possível para que ele e seus irmãos haitianos se sintam muito bem acolhidos em nosso país, eu tenho vergonha e medo. Não é o medo que Flaubert sente, só ele conhece o medo dele. O meu medo é de que nossa proteção e nossa atitude positiva não consigam fazer com que nossos queridos e honestos novos imigrantes se sintam acolhidos aqui. De que aquele ato infeliz prevaleça. E o pior: de que Flaubert e outros imigrantes venham a ser vítimas de mais violência. Dizer “o pior já passou” é uma forma de tranquilizar, mas o medo desconfia. Tenho medo porque não confio que a onda de ódio disseminada em nosso país seja abafada pela empatia e pela vontade de acolhimento que também temos.


A minha gastrite é tão fraca e estupidamente cinematográfica, que me diz: “Agradece por teus privilégios”. Ela é fraca, dublada, clichê porque jamais algo em mim deveria me lembrar de agradecer: a consciência e a consequente gratidão pelos privilégios deveriam ser algo básico. Além do mais, agradecer por privilégios é egoísta, não cria necessariamente ações externas. Por isso, não vou, de forma alguma, finalizar este relato dizendo “Amigos, agradeçam por serem privilegiados”. Eu vou é pedir uma outra coisa que infelizmente está longe de ser básica: sejamos pessoas agradáveis. Por mais medos, incertezas, dificuldades, derrotas, divergências ou sonhos frustrados que tenhamos, sejamos pessoas agradáveis. Muito mais do que já supomos ser. Façamos o possível para sair dessa existência com a lembrança de que fomos pessoas agradáveis umas com as outras. Com ódio, não dá.