Documentário — “O riso dos outros”

O documentário “O riso dos outros” discute os limites do humor e sua função social.

É comum que se ouça, em contraposição a um dissentimento: “é só uma piada”. O que Escreva Lola Escreva afirma, no vídeo, é que nunca se trata apenas de uma piada, uma vez que tudo na vida é representação. E mais do que isso: o humor sempre foi, desde o começo, político. A tentativa, na discordância daqueles que questionam o fazer humor estupida e violentamente, nunca foi despolitizar o humor; muito pelo contrário: é o desejo de assumi-lo político e responsável também pela organização social. Como lembra Jean Wyllys, quem acredita que o humor não é política, é porque tem uma compreensão muito pobre do que isso seja.

Além disso, para muitas pessoas, trata-se apenas de liberdade de expressão, evocada contra a “ditadura do politicamente correto” — um termo que essas mesmas pessoas inventaram, cunhado no conservadorismo da direita, com o propósito de reduzir a “chatices” os questionamentos das populações que são agredidas por esses discursos. Sobre isso, cabem dois comentários. O primeiro deles é que, como o documentário bem lembra, as liberdades também têm seus limites, e esses limites estão no direito do outro, no reconhecimento do outro. O segundo ponto foi muito bem colocado por Idelber Avelar no documentário: “Vivemos ainda uma situação de brutal desigualdade, na qual as pequenas conquistas dos grupos historicamente oprimidos não podem ser apresentadas como uma nova ditadura, ou uma nova ortodoxia, como uma patrulha. É curioso como o termo patrulha aparece, muitas vezes, simplesmente para designar a colocação de um ponto de vista contrário”.

Muitas vezes, também, se apela para a naturalidade das características apresentadas por esse humor raso. É natural, por exemplo, a sujeição da mulher ao homem, sua posição de inferioridade. Isso é um equívoco, é uma incompreensão grave. Nada disso está no plano da natureza; é na cultura que esses discursos e práticas se realizam. E, novamente, lembra Jean: “se é da cultura — e cultura muda no tempo e no espaço -, esse tipo de mentalidade pode mudar também. E a gente se organiza politicamente pra isso”.

Por fim, há uma ideologia marcada nos discursos humorísticos. E isso é inegável — aliás, a própria negação da política, da função social e do poder do discurso humorístico marcam, em si, uma ideologia perversa. “As piadas não têm um fundo de verdade, elas são a verdade com nariz de palhaço”. E Laerte lacra, lindamente: “o discurso humorístico é também um discurso ideológico; ele diz coisas, por mais que a intenção seja divertir as pessoas enquanto comem batata frita”.

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