
Achei Líquido, Pós Moderno.
Venho por meio desta falar por esporte sobre algo muito mais denso e acadêmico do que eu tenho instrumental para analisar. Olá time, hoje vou falar do momento louco que estamos vivendo e o que eu espero dele; segura minha mão e vem comigo nessa viagem.
Premissa: estamos em crise. Outra premissa: toda a base teórica que vou aplicar é extremamente focada no Ocidente.
“Bia que crise é essa que você está falando?”
Os últimos anos são o reflexo de uma crise econômica e política (questionamentos de princípios e preservação de “velhas políticas”, com soluções como Brexit e pessoas como Trump, Bolsonaro, etc, que se propõe a ser “não-políticas” e mudar tudo isso aí). Crises de informação, com fake news, de valores, com o conflito do resgate de tradição e a renovação. Um período de pós verdade. Fala-se muito de polarização, de todo mundo meio estranho, de dificuldade de debate. Violência descontrolada com foco em grupos específicos. É, ao meu ver, uma crise generalizada, que afeta todas as nossas instituições
Agora que concordamos que estamos em crise, tenho um ângulo para oferecer: estamos em um momento de transição por causa de crise maior e guarda chuva de todo esse caos, uma crise de referencial. O mundo está mudando acelerado e as referências sólidas que adotamos por tanto tempo como sociedade já não fazem mais sentido. Apesar de necessária, não estamos sabendo fazer dela uma transição tranquila.
Contexto: até os anos 1990, vivemos a modernidade. Esse é o nome da nossa visão de mundo (filosofia, ciências, valores, estética, etc) até então, que começou mais ou menos após a Idade Média e se estendeu, ganhando força com a revolução industrial (séculos XVIII e XIX) e, em muitas análises, sendo parte integrante do capitalismo. Sociológica e historicamente, pontuam as guerras mundiais como sinais de crise do modelo. Não precisamos entender muito sobre modernidade para refletir sobre qual foi a visão do mundo durante esse tempo: houve um rompimento com o pensamento medieval católico, e o foco virou a Razão. Apesar de privilegiarem o intelecto em detrimento da fé, o referencial adotado não era universal. Os pensadores responsáveis por essa visão de mundo eram de fato OS (no masculino), europeus, brancos. O ideal de vida foi pensado dentro do modelo existente que vinha evoluindo (capitalismo), com valores condizentes com a sociedade (tradição familiar judaico-cristã). Isso engloba tudo: quantas horas trabalhamos, como somos educados na escola, o modelo familiar que almejamos, o que consideramos sucesso e fracasso. Buscar fazer faculdade para ter um bom emprego e posteriormente casar e ter dois filhos é um referencial moderno.
Quebras de Valores
A crise do modelo moderno é objeto de estudo. Bauman falou sobre isso no livro “Mal estar na pós-modernidade”: a mudança de uma era de valores e referências sólidas para um modelo de valores e relações líquidas. O que foi construído com o suor industrial do período moderno e baseado naquela percepção de razão está inseguro. Está, mais do que isso, questionável. Os valores, as relações e a forma que vivemos estão sendo uma versão derretida do roteiro tão bem escrito que tínhamos antes. Em “Amor Líquido”, o autor discute a fragilidade e flexibilização das relações, e as inseguranças que isso gera no indivíduo. Bauman também discute bastante da sociedade de consumo e ela está intimamente ligada ao individualismo solitário que existe.
Bauman é incrível, leiam os livros dele. Hoje, citam a rodo o conceito de liquidez das relações e valores como uma sentença: acabou a longevidade dos relacionamentos, e estamos condenados a uma perpétua superficialidade. Apesar da discussão sobre consumo e individualismo ser essencial — as relações estão se esvaindo porque o deixamos para trás parte da humanidade para virar consumidores — existe um outro lado. O que era sólido se defez: essa crise de valores é essencial. Essa crise também é fruto dos novos referências que surgem.
Viemos de uma visão de mundo completamente centrada em único ângulo e referencial: europeu, cunhado com a revolução industrial, branco, hétero, masculino. As relações eram sólidas, mas em cima dessa visão. Casamentos não acabavam porque o direito do divórcio foi algo a ser conquistado, por exemplo: até 1977, só era permitido no Brasil em caso de traição ou tentativa de assassinato. Essa forma de relacionar está mais líquida porque não está presa num referencial de casamentos eternos e condicionamento legal da esposa como dependente do marido. A liquidez pode vir fruto de perguntas e questionamentos de referências, antes sólidas.
E, no meio de todo esse processo de crises pós guerra e dúvidas, chegou um combustível para aumentar o incêndio.
Internet = fogo no parquinho
Outro ingrediente essencial para fomentar os debates e crises: a internet, que entrou como a grande redistribuidora de vozes. Qualquer pessoa pode, potencialmente, criar conteúdo online e encontrar pessoas que têm o mesmo interesse. Informação não é mais unilateral (da TV/jornal para o espectador) ou de cima pra baixo (do professor para o aluno), é pulsante e sem um monopólio bem definido como antes. Se antes criações vinham majoritariamente de empresas com muito dinheiro e que faziam manutenção desses modelos antigos — conteúdos que repetem sempre a mesma visão de mundo -hoje vêm, além desses gigantes, de incontáveis vozes na internet. Não que a TV tenha morrido, mas existem milhares de outras opções que podemos olhar.

Em paralelo, economia não está boa, temos crises, temos pobreza: a população sente raiva. Vamos fazer uma soma simples: crise de valores e tradições vinda desde a guerra, reações à instabilidade econômica, virando uma bola de neve com esse desordenador todo especial que é a internet. Vozes que, com movimentação política e acesso à internet, ganham um volume que nunca tinha sido ouvido. Discussões sobre diversidade — leia-se diversidade como qualquer coisa distinta do homem cis hétero branco — com uma tração sem precedentes. Nunca tivemos tanto acesso à informação, e nunca fomos tão desconfiados seletivos — vide todo o fenômeno de fake news e a confiança no WhatsApp mas não no jornal. A carta aberta dos funcionários do Facebook sobre propagandas políticas na plataforma e a decisão do Twitter de não permiti-las não são por acaso: está sendo reconhecido o papel dessas plataformas no consumo de informação, e como isso altera a forma que vemos o mundo.
Resgate ao passado versus o inevitável futuro
A ascensão de pessoas altamente tradicionais que prometem buscar uma grandeza do passado — Make America Great Again, Bolsonaro querendo resgatar valores familiares — são sintomas do que estamos vivendo. Sem entender ainda esse mundo de referencial diverso e muitas vezes com raiva da situação política e econômica, pessoas buscam o que conhecem, e se limitam nas informações que se sentem capazes de navegar. Não educamos a população para aprender a curar notícias e entender a diferença entre verdade e mentira sem uma autoridade falando, e não ensinamos as pessoas a abraçarem as vozes que desafiam o modelo que elas aprenderam como certo e único. Estamos em crise porque não sabemos navegar esses novos referenciais, e nem a quantidade de informação que recebemos. Estamos em crise porque estamos mudando.

A grande questão é que não há política retrógrada ou pensamento nostálgico que consiga nos puxar para o século passado. Não existe medida que vá apagar do mundo a amplificação de voz que a internet deu, a quantidade de informação que precisamos aprender a navegar, e a ascensão de grupos que calamos por tanto tempo. Não vão simplesmente sumir essas novas referências. O essencial agora é se reinventar, para não ficarmos para trás e como uma sociedade fragmentada.
A pós modernidade é a descrição do nosso processo. Estamos negando a modernidade para ir para algum outro lugar, e nem todo mundo está conseguindo digerir a mudança direito. Existe retrocesso, existe medo, existe opressão. Mas não tem o que fazer: não tem como cancelar agora, somos uma sociedade em transição já há algum tempo.
Partindo do princípio que não teremos mais referenciais únicos, são dois os caminhos que vejo: um mundo de nichos e comunidades separadas com suas referências únicas, ou uma sociedade que abraça vozes diversas em um construção plural. Minha torcida é pela última.
Seguimos sentados para ver onde o após da pós modernidade vai parar.
