• do dia dos pais •

eu já tive muita raiva do meu pai. de falar pra minha vó que se morrer nem ao enterro eu iria. e ouvir do outro lado do telefone minha vó chorar e não sentir nem um pingo de remorso pelo que falei. como eu poderia nutrir algum sentimento por aquele que foi responsável por toda a desgraça da minha família?

eu sempre quis ter filhos. não sei se sempre quis ser mãe. queria ter filhos pq era a ordem natural das coisas. pq era o que todo mundo tinha: uma família. e eu precisava ter o lar que nunca tive, composta por pai, mãe e filhos. um lar. deu errado. e deu errado pq o que eu buscava naquela família era algo que ela nunca poderia me dar. um pai.

meu pai reclamava um abraço, reclamava afeto, reclamava uma família. que ele tinha. mas não a que ele precisava. e nesse mundo de ajustados, nesse mundo de nove as cinco, nesse mundo de contracheques em 5º dia útil, meu pai nunca se encaixou pq ele era muito mais que aquilo. ele reclamava afeto de uma família que ele tinha para uma família que aconteceu sem ele planejar. na ingenuidade da minha mãe e na pressa do meu pai, eu aconteci. e veio minha irmã, veio o lar, mas não veio o afeto. pq ele nunca existiu. ninguém nunca deu. e como a gente dá aquilo que não tem?

do sartre na parede às conversas no banheiro de porta aberta, a sensibilidade de meu pai era agressiva. e ele não sabia, nunca soube lidar com a sensibilidade. vinha o choro. “débora, você tem uma grandeza na alma”. e eu, menina, achava que aquela era mais uma das sandices dele. sandice.

“hay que endurecer-se, pero sin perder la ternura”. essas e outras frases prontas, as veias abertas de um galeano sem capa e a marca do tiro acidental na estante. o sartre na parede, o surto que não seria o último. hoje eu enxergo o desespero no olhar, mas a gente precisa tomar distância pra enxergar o panorama. carece maturidade e convivência com outros descolados pra entender 1/10 do que você era, do que você é. outro surto, o diagnóstico que até hoje ninguém sabe se era correto, suas ideias brilhantes e a vontade de executá-las, a sua irmã que hoje te trata pelo nome e afirma que não te conhece.

será que seria diferente se a gente tivesse conseguindo te ajudar antes? a gente não sabia, a gente não podia. a gente não tinha o que fazer. a gente orava prum deus que hoje eu nem sei se existe. as coisas são como tem de ser e se não fosse você eu não seria. sou um tanto de você que rechacei e talvez rechace até hoje pq eu não quero pros meus filhos o que aconteceu comigo. mas no tom de voz alto, a rapidez do raciocínio, o jeito de falar com as mãos e o formato das unhas, eu sou muito mais você do que eu gostaria. eu tou correndo contra o tempo desde sempre, tentando alcançar o que eu poderia ter sido se não fosse você. mas se não fosse você, eu seria?

a distância me fez enxergar quem você é e todos os pedidos de socorro que não pudemos atender. sua passagem por aqui poderia ter sido grandiosa, e eu tenho certeza que você gostaria que fosse assim. mas entendo que você não conseguiu fazer com que assim fosse.

hoje, eu não sinto mais sua falta, mas sinto falta do pai que você poderia ter sido. mas, por entender que a gente não pode ser aquilo que a gente não é, espero que você siga em frente. como eu tou seguindo.

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