Marrom

(para ler ouvindo: “Boa Esperança” e “Mandume”)

Outro dia li um artigo em que o fotógrafo disse que precisamos nos aproximar do objeto retratado. E isso não apenas geograficamente.

Jonatas foi abandonado aos 2 meses pela minha tia, na casa de uma vizinha. Criado pela minha vó, daquele jeito. Apanhando de todo mundo e sem referência familiar nenhuma.

Tragédia anunciada: morador de periferia, encontrou referência na rua e aos 18 foi preso por assalto a mão armada.

5 anos e uns quebrados de pena, saiu há alguns meses em regime condicional. Jonatas está trabalhando como vigia numa obra, todos os dias, das 20h às 8h, com uma folga por semana, por cerca de 2 salários mínimos. Não tem horário de janta. Mesmo sabendo que a carga horária é absurda, se sujeita pois precisa trabalhar.

Quando foi fazer entrevista pra esse emprego, o responsável perguntou se ele tinha problemas com a justiça. Ele respondeu que sim, e o máximo que o empregador pode oferecer foi um posto de trabalho com situação praticamente análoga ao trabalho escravo, sem registro em carteira.

Ele prontamente aceitou. Afinal, o salário era melhor que o amigo que tem uma revenda de água ofereceu (amigo esse que forneceu uma declaração pra que ele possa apresentar à justiça para comprovar que está trabalhando, senão perde a condicional).

E esse é o Jonatas, meu primo. 21 anos, preto, pobre, ex-presidiário e que me apresentou o Marrom com o maior amor do mundo. E ah, ele escreve uns funks ostentação ai.

daqui: https://instagram.com/p/7l9vgzPsh7/

Eu espero que eles sejam felizes.