Eu tricotando no hospital, quando precisei fazer uma curetagem de emergência

Criar o fios e Ritos foi algo intuitivo. Nunca fui habilidosa com as mãos, não aprendi nenhuma manualidade com mulheres da minha família, nem tenho um apreço pela estética do fofo ou elementos agradáveis (a maioria) dos olhos.

ele aconteceu depois de anos de busca pelo meu caminho (de vida e profissional), mas também como uma forma de cura, a solução para o eterno desencaixe que eu sentia. Um sentimento que deixou de herança uma ansiedade crônica, uma certa compulsão alimentar e algumas crises de depressão.

Felizmente eu nunca me “afundei” por completo, de alguma forma a vida também me deu, durante todos esses anos, motivos suficientemente fortes para que eu sempre saísse da cama. Trabalhos e causas que abracei como minhas, porque, de alguma forma, eram eu também.

A mais marcante delas, sem dúvida, foi a síndrome de Down. Com as pessoas que de alguma forma são impactadas pela síndrome, aprendi sobre potencial humano e nosso total desconhecimento (como sociedade) sobre isso. Durante esses período, tive certeza da nossa limitação quando se trata de contribuir para o desenvolvimento real dos mais diversos tipos de seres humanos.

Nesse tempo, aprendi também que todos nós temos um único destino, evoluir e, se possível, colaborando uns com os outros, mas para isso, cada um acha/precisa achar seu meio.

O meu meio

Quando comecei a bordar estava tomando antidepressivos. Eu ainda não havia descoberto o meu meio e precisei de remédio para segurar a barra de mais uma crise de depressão. A manualidade me salvou de mim mesma e tem sido minha grande fonte de cura. Foi o tricô que amparou minha dor durante a curetagem de emergência que eu precisei fazer esse ano (aquela dor que nenhum fator externo é capaz de aplacar), assim como foi a minha meditação hoje às 5h da manhã quando senti uma enorme preguiça de levantar da cama.

Kate Davies, The Handywoman

Kate Davies e seu livro Handywoman (https://katedaviesdesigns.com/)

Na Escócia, Kate Davies tem o mesmo método de cura há oito anos. Após sofrer um derrame, a designer (que na época tinha 36 anos), passou a utilizar os trabalhos artesanais como um caminho para a construção da sua nova identidade como uma pessoa com deficiência.

A partir da experiência de uma lesão cerebral, Kate ressignificou sua vida nos movimentos lentos do tricô, criando sua marca, Kate Davies Design, e através da prática reflexiva da escrita, publicando diversos livros, o último deles, sobre essa sua experiência:

“Handywoman é sobre o que significa tricotar um suéter. Sobre a idéia de andar quando se encontra em um corpo que não anda mais. Sobre aprender a dançar quando metade do seu corpo mal se move. Sobre o quão difícil é aceitar o ego após grandes mudanças físicas, sobre a desenvoltura e a alegria de uma infância comum, sobre amor e amizade, sobre um cão, sobre criar, sobre identidade, sobre a vida não acontecer exatamente como você esperava, sobre entender a limitação como um recurso criativo e não como um impedimento. Handywoman é sobre encontrar um senso de lugar e propósito. E é sobre pensar em como um bom design pode contribuir para o desenvolvimento de uma esfera pública mais inclusiva, mais humana.”

Ainda não li o Handywoman, livro de Kate, que acabou de ser lançado, mas assisti a seu TED e é emocionante. Não por essa lógica corrente e desqualificante de superação (que ela mesma faz questão de não usar), mas por ela reunir em si elementos tão significativos da minha própria história: deficiência, manualidades e trabalho da potência humana com respeito a quem se é.

Se para Kate o movimento calmo das agulhas dá a vazão precisa a sua capacidade motora, para mim, ele é um bálsamo para as emoções. Corpos, físico e emocional, que se entrelaçam com os fios, gerando reflexão e desaguando no processo da escrita, enquanto trazemos ao mundo nossas criações.

E por aí, por onde flui a sua potência?