
Aos 30
Ontem uma amiga me ligou
daquelas amigas que não se vê
há anos, quase parecem 30 anos
e ela me dizia, entrecortando assuntos
que a vida é mesmo uma sobreposição
que só se vê em partes e quando
nos damos conta dos horrores
que somos quando nos damos conta
dos horrores que somos há menos de
20 mil anos com o surgimento do
homo sapiens
sapiens
nos damos conta dos horrores que somos
e dos horrores que ainda seremos
da imensidão que achamos que somos
das perdas inestimáveis, das mudanças
extinções, somos os horrores que somos
porque somos homo sapiens sapiens
há menos de 20 mil anos não éramos
nada mais que coletores nômades
e morríamos na boca dos horrores
e me pergunto se ainda não somos
os horrores nômades que colhem
com a boca pequenas frutas pelo
caminho engolindo alguns sapos
pequenos insetos e desaforos
coletores de traumas humores
desesperos brilhos e horrores
os horrores que somos e nós
que brilhamos tanto que esquecemos
Outro dia uma outra amiga me disse
digitando com seus dedos nos horrores
evolutivos que nos permitem zapzap
poemas reflexões desabafos desolações
na tela de um aparelho feito por mãos
ainda escravizadas em algum lugar
porque somos os horrores que somos
homo sapiens sapiens
ela me dizia eu vou falar uma coisa
meio louca, mas as vezes acho
que só passando pelo o estágio de achar
a vida completamente insignificante
sem sentido, para poder chegar
ao estágio de achá-la significante
com sentido, porque nada importa
quantas frutas ela precisou coletar
ao longo de 20 mil anos para chegar
a essa conclusão? eu não sei
Minha mãe não fala coletar
nem colher, nem pegar,
ela fala apanhar
minha mãe ainda apanha
frutas do pé mesmo sendo
os horrores que somos
homo sapiens sapiens
ainda apanhamos,
pequenos insetos,
e um dia ainda vamos descobrir
que já apanhamos o suficiente
o horror dos coletores nômades
e que já achamos o suficiente
que apanhar era amor.
