Meu sol, meu mar

Valentina Contreras

Nunca fui muito ligada aos astros, aos alinhamentos de planetas, aos misticismos. Confesso até que tive uma fase de dar maçãs para os gnomos, mas não foi nada lá muito sério, era quase um experimentalismo. Por essa razão, nunca me preocupei demais com astrologia, ciclos lunares, planetas e casas astrais.

Nas tardes de sábado em janeiro, ficávamos eu, minhas irmãs e meu tio, lendo as famosas revistas de virada do ano de João Bidu. Para quem não sabe, João Bidu é um místico de banca de revista, desses que dão previsão para cada signo e ainda de quebra falam sobre a numerologia do ano que se inicia. Nas últimas páginas, simpatias para o ano todo. Um prato cheio para quem nunca se preocupou, um banquete para o riso.

Por causa de João Bidu, passei toda uma vida achando que meu signo era Aquário. Tudo se alinhava perfeitamente, as características eram idênticas, a forma de ver o mundo, tudo. Eu era a perfeita aquariana. Mas só na minha cabeça. Na verdade, ser aquariana era tudo o que eu sonhava. Fazendo aniversário no dia 19 de fevereiro, ser fraterna, livre e prafrentex era tudo o que mais me encantava. Inventar essa história da minha cabeça era, na verdade, minha maior característica do meu real signo: Peixes.

A. Smit for ‘The Art Decorator

Muitos anos se passaram e eu fiel ao meu Aquário, desfrutando dessa história que só poderia ter sido inventada e vivida por alguém de Peixes. Até que um dia, um amigo mais chegado nas astrologias, em meio a uma conversa, me disse que eu não tinha cara de aquariana. Eu falei que havia nascido ali, na fronteira, e ele fez meu mapa astral: 2 graus em Peixes. Me recusei a aceitar, entrei em choque, em negação. Sim, bem típico de um pisciano, dizia ele.

Com o tempo fui me adaptando à ideia. Talvez eu negasse tanto esse mar caudaloso que mora em mim por ver o tanto de lágrimas que um Peixes é capaz de chorar.

Hoje sei que tenho não só o Sol, mas também outros planetas em Peixes. Abracei esse misticismo que só tinha se manifestado no fingimento, fingindo não se importar. Passei a saber como abraçar meu choro e a como entender esse mar. Tudo que escrevo é intenso, tudo o que falo é carregado de exageros. Sou a rainha de receber #calmagente, quando nem nervosa estou. Sim, é meio marítimo mesmo, ondulado. Ao lado de cada ponto final, um coração. Uma vida de novela, com reviravoltas, piscianamente sendo eu.