Oi, Estela, tudo bem com você?

Decorator by Eleanor Davis

Faz alguns meses percebi que tenho evitado perguntar minúcias aos meus amigos. Explico: sempre fui a pessoa inconscientemente arrogante e curiosa que achava que poderia fazer alguma coisa por alguém ao ouvir seus problemas e argumentar sobre eles. Por isso, depois de passar essa arrogância e curiosidade para o campo da consciência, entendi que o melhor era deixar que cada dos meus amigos trouxesse a mim o que quisesse. Minha atual pergunta favorita é: tudo bem? É a partir dela que uma pessoa, se estiver à vontade, vai se abrir o quanto e como quiser. Não serei mais eu a determinar que caminhos a conversa irá tomar.

Isso tudo aconteceu porque tive um relacionamento complexo e simbiótico com uma amiga que nos fez muito mal. Eu a achava fraca, ela me achava forte. Quando, no fim das contas, eu talvez fosse mais fraca que ela, mas a melhor forma de disfarçar essa fraqueza era me mostrar forte para carregar qualquer problema dos outros. Mas isso não é força, isso é disfarce. Um enorme disfarce para evitar pensar em si mesma. Ao ouvir as questões dos outros, me colocar como ouvinte e observadora, passei a não mais verbalizar minhas dores, complexidades e problemas. Assumi o lugar da ouvinte atenta, da observadora, da amiga que tem sempre um conselho infalível ou que sempre tentava ter.

Na tentativa e erro de encontrar a resposta para os outros, fui me perdendo das minhas próprias respostas. A síndrome da salvadora, papel mais comumente ocupado por mulheres, faz com nós nos afastemos de nós mesmas. Ainda que ao responder questionamentos dos outros eu pudesse encontrar saídas para os meus próprios questionamentos, meus assuntos nunca estiveram no topo para mim. Nem para ninguém.

Não queria pagar de bem resolvida, minha questão era simplesmente medo. Um medo incontrolável de me deparar com todos os monstros que ainda se escondem aqui dentro e não saber como lidar com cada um deles. Assim, era mais fácil lidar com os monstros dos outros. Era como lidar com fotos de guerra, dói, você se compadece, mas jamais vai poder imaginar do que se trata de verdade. Os problemas dos outros são grandes enigmas, verdadeiros quebra-cabeças, e eu, menina cristã, devia desembaralhar todas as peças e montar o panorama dos outros. Mas e eu?

Cloudy Thurstag

Essa foi a pergunta que passei a me fazer ao longo desses últimos meses: E eu? Uma pergunta que não era direcionada a ninguém mais além de mim. Por que não eu, Estela? Por que não ficar em casa, entender a si mesma, se expor, por que nunca a sua vez? Na minha fila mental, todos os meus amigos vinham antes, minha família vinha antes, até mesmo os desconhecidos que me mandavam mensagem vinham antes. Minha vida, em um instante, virou de cabeça para baixo dentro de mim. A porta daquele quartinho, onde guardamos os problemas mais obscuros, cedeu e me cansei.

Um cansaço real, físico, acompanhado da minha primeira crise de estafa. Dor nos ombros, cabeça explodindo de sinusite, tosse, ouvidos entupidos. Tudo fisicamente acontecendo. Era mesmo como se o meu corpo estivesse berrando, pela primeira vez, conscientemente, que não dava mais para continuar me congestionando, entupida com todas as questões que me atacavam de todos os lados. O cansaço físico, a dor nas costas, os ouvidos entupidos, me forçaram a parar. Tive que deitar comigo mesma em minha cama e me ouvir atentamente. Tive a curiosidade de usar comigo meu discurso grave e amoroso, marca das minhas amizades. Fui dura comigo, mas me abracei depois. Foi difícil, dolorido, complexo, um furacão em silêncio se alastrava por dentro de mim. Dos escombros, fui saindo.

Hoje li uma frase que escrevi há seis anos atrás, essas lembranças de Facebook: “Como é que vai ser quando eu não for mais o alvo das suas baixezas?” Sei bem a quem me dirigia quando escrevi isso, mas hoje prefiro pensar que essa frase poderia ser pra mim. Como é que vai ser quando eu não for mais alvo das minhas próprias inseguranças, dores? Como é que vai ser quando eu mesma não me deixar para trás, quando eu não mais me ignorar, quando tiver uma pele para me separar do mundo lá fora?

Encho meus pulmões, ainda um pouco cansada, uma tosse que não passa, e digo: Apesar de toda a poeira, os pedaços de outras relações mal resolvidas, as dores, os amores abandonados no meio da estrada, ouvir meus próprios problemas, perguntar a mim mesma se está tudo bem é maravilhoso.

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