Sem açúcar, com remédio

Um texto que escrevi em 16 de setembro de 2009.

Tô flertando com meu médico faz três semanas, ele segura na minha mão toda vez que vou embora e fico na expectativa do convite pro café. Nunca me convida. Enquanto isso vou sozinha pro café e aceno pro garçom que já sabe o que me servir: duas xícaras de café, uma sem açúcar, porque é assim que o doutor gosta. Tomo as duas xícaras na sede de engolir aquela feição branca que abre minhas portas toda sexta-feira.

Caí na rua um dia desses. Não doeu, mas todos me olharam. A sensação de ser vista me agradou, depois percebi que estou ficando velha e que cair para chamar atenção não posso mais. Torci o pé.

Fui ao médico na segunda, meu pé não parou de doer, mas o que doía mais eram meus olhos que não o viam há três dias. Ele me perguntou o que houve. Eu ri e disse que a mão dele não estava lá pra me levantar do tombo, então que estivesse agora pra curar. Pra curar essa psicose que criei em cair na rua, esse gosto por asfalto, tijolo, cuspe e cocô de pombo. Sabe, doutor, estou ficando louca, às vezes acho que a salvação tá naqueles caras que me dão papéis sobre empréstimos. Acho que poderia pegar um empréstimo e viajar pro Egito, chamar o doutor pra ir comigo, se eu cair nas areias egípcias gostaria de ser amparada por um homem com diploma, sabe? Pra curar esse tornozelo de velha que já não tá me servindo mais. Ele ri e diz: Tomou o remédio que eu te passei? Tomei.

Saí da sala e fui tomar meu café. Meus cafés. Nossos, cafés, doutor, nossas duas xícaras de café tão diferentes. Você que toma café sem açúcar pra tentar me ensinar que café já faz mal, com açúcar então… Diabetes, vício, pressão alta. Doutor, eu não fumo cigarro, me dê parabéns por isso. Ah, está me ensinando a cuidar da saúde não sentando aqui comigo nesse café de canto de calçada, esse café com esse garçom que me viu cair semana passada.

Pego ou não pego o remédio na bolsa? Meu remédio seria que o doutor abrisse minhas portas duas vezes por semana. Analista nunca, afinal de conta nada pode ser mais divino que amar o sujo, o nojo, o tombo e a dignidade de levantar.

Não posso esquecer. Não posso me esquecer de perguntar ao doutor. Quer tomar um café comigo? Assim, sem açúcar, com remédios, ali na esquina, depois você me leva pra casa, me abre as portas e vai embora. Doutor, tomar esses remédio com duas xícaras de café pode me fazer mal?

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