Steven Universo e o protagonismo feminino nos desenhos animados

Cresci criada por desenhos animados. Os momentos de televisão que eu tinha quando era criança foram quase todos gastos com Pica-pau, Coiote e Papa-léguas, Tom e Jerry, Mickey, Pateta, Pato Donald, Cavaleiros do Zodíaco, Doraemon e mais uma infinidade de coisas do estúdio Hannah-Barbera. É só voltar nessa lista que fiz e perceber: são todos homens.

Tirando a Saori (isoladíssima e santa do Cavaleiros do Zodíaco), a Penélope Charmosa (princesinha), nenhuma personagem feminina se destaca, tem voz, momentos importantes. Restava a Meany Ranheta, melhor vilã dos desenhos animados, da qual sempre fui fã, porque fazia e recebia como todos os outros vilões do Pica-pau.

Pois bem, por essa minha incrível educação feita por desenhos animados, me tornei uma adolescente que preferia desenhos a séries e uma adulta que chora mais com os filmes da Pixar e do Studio Ghibli do que com filmes dramáticos.

Quando cresci, comecei a dar mais valor às Meninas Superpoderosas e a desenhos que traziam personagens femininas empoderadas e menos dependentes dos homens, ainda que por muitas vezes marcadas por estereótipos.

Foi quando conheci, através de amigos, um tal de Hora de Aventura, que me apresentou princesas incríveis, completamente fora do padrão, que só levam esse nome porque são elas as que comandam a porra toda. Elas são fortes, inteligentes, confiantes, com os mais variados corpos e formatos e tipos e cores e todas, digo todas, estão cientes de que são elas que mandam ali.

A gente é foda, miga!

Mas esse post não é sobre Hora de Aventura. Vim falar sobre o desenho que me pegou depois de conhecer o Cartoon Network: Steven Universo, um pequeno garotinho órfão de mãe, que arrebatou meu coração e me faz até emocionar só de pensar nele. Mas Estela, você não estava falando de protagonistas mulheres? Sim, estava, é aí que ele entra como exemplo de carinha para um bando de meninos que assistem o Cartoon.

Steven é um menino de idade incerta, que vive em uma cidade chamada Beach City Island. Ele é filho do Sr. Universo com Rose Quartz, uma “alienígena” Gem, que veio com suas companheiras Pérola, Ametista e Garnet, salvar a terra de outras Gems do mal. As Gems são mulheres representadas por gemas mesmo, pedras preciosas, e cada uma tem seu poder e personalidade de acordo com a sua pedra. Rose Quartz conhece o Sr. Universo, um rock star, se apaixona e fica grávida do Steven. Por ser uma Gem, ela não pode coabitar o mundo com o pequeno Steven, pois sua parte física, que é sua pedra, passará então a fazer parte dele quando nascer. E é assim que Steven aparece, desde cara, órfão de mãe e criado por três outras mulheres, as Crystal Gems.

Ele cresce rodeado de referências femininas fortes, contraditórias, empoderadas, mas também confusas, sentimentais e maternais. As Gems são representadas com uma gama enorme de sentimentos e qualidades. Elas e Steven são passíveis de erro e erram muito, mas se constroem juntos. São um time, uma família com três mães, com sentimentos intensos que confundem qualquer adulto, mas duvido que confundam as crianças.

Pérola é alta, magra, branca. Perfeita para os padrões da nossa sociedade atual e, talvez por isso, atormentada pela perfeição, pelo controle, pela vaidade de ser uma Gem. Mas, ao mesmo tempo, é ela quem está ao lado do Steven ao ensiná-lo sobre autocontrole, assim como ele está ao lado dela para ensiná-la sobre o amor e sobre a vulnerabilidade. Ao longo dos episódios, vemos Pérola se desconstruir, chorar, se decepcionar e se fortalecer ao lado de suas companheiras Gems.

Ametista é baixinha, gorda, roxa. É o oposto da Pérola, a zoeira em pessoa, a mais empolgada do grupo, adora dançar, adora rebolar, comer, correr. Apesar de sua autoestima baixa, não adianta Pérola impor seus padrões de beleza à Ametista, isso não importa a ela. O que importa é trazer alívio àquele trio e segurar a barra com sua força e persistência. Ametista não desiste, mesmo tendo uma história triste como background. Para mim, ela é o exemplo de empoderamento e aceitação. Ela se ama e muito.

E a Garnet ~suspiros~. Dublada pela atriz e cantora Estelle, é uma personagem grande, tanto em seu tipo físico como em sua personalidade. Alta, negra, com um corpão, ostentando um black power in-crí-vel, é a mais sensata do trio. Fala pouco e é a líder do grupo. Totalmente apaixonada pelo Steven, Garnet sempre reconhece que, mesmos as falhas do menino são essenciais para que cresçam juntos. Garnet, diferente das outras duas, tem duas gemas, uma em cada mão, e três olhos, escondidos por um óculos espelhado sen-sa-cio-nal. O fato de ter duas gemas e três olhos é importantíssimo, mas não quero dar spoiler.

Rose Quartz (Quartzo Rosa), a mãe de Steven que só aparece em flashbacks, em sonhos ou como um holograma, é uma plus size incrível, rosa, com cabelos cacheados, amorosa e, aparentemente, a Gem mais poderosa de todas, mas que não tem uma arma letal e sim um escudo. Rose vê beleza em tudo e foi por isso que decidiu proteger a Terra, esse lugar imperfeito, cheio de humanos imperfeitos, lindamente retratados por esse desenho tão delicado.

Meu amor por Steven Universo é imenso, principalmente por ele ter sido escrito por uma mulher, a talentosíssima Rebecca Sugar, conhecida por ser roteirista dos melhores episódios de Hora de Aventura. Além de responsável pela maioria das músicas que a Marceline canta, por exemplo, Rebecca também é conhecida por ser a primeira mulher a participar inteiramente de dois desenhos do Cartoon Network. A gata é tão destruidora que foi indicada a vários prêmios, ganhando um Emmy Awards por episódios de Hora de Aventura, e figura na importante lista da Forbes30 under 30”. E se isso não é motivo suficiente para dedicar um tempo ao desenho, a quantidade de personagens femininas complexas que Rebecca trouxe para o desenho é.

Gente, sério, é muito importante ter desenhos como esse para a construção da personalidade de milhares de crianças (e adultos também). Além das Gems que descrevi acima, ainda temos outras personagens femininas, Gems e humanas, como Connie Maheswaran, melhor amiga do Steven (de novo, mais uma mulher construindo a personalidade dele), aparentemente indiana (mas há quem fale de uma origem paquistanesa), usa óculos e tem uma série de problemas de autoestima; Lapis Lazuli, uma Gem considerada fraca, que fica presa em um espelho (ai meu deus as metáforas) e quando se liberta se joga no mar (ai meu deus as metáforas 2); Sally, gerente da loja Big Donuts, gorda e de baixa estatura, nada popular, que vive um relacionamento estranho, para não dizer abusivo, com Lars, seu colega de equipe.

Para as meninas, que assistem o desenho, ter heroínas como as Crystal Gems que, ao contrário das princesas com cinturas finíssimas, são fora do padrão, falhas e poderosas, é maravilhoso para a representatividade. Para os meninos, ver que Steven admira aquelas mulheres, que ama sua amiga Connie e que é amor da cabeça aos pés com sua família nada tradicional de três mães, é uma quebra de paradigmas. Ser como o Steven é ser aliado das mulheres, é saber que sim elas podem ensinar muito a ele e que ele também pode ensinar muito a elas.

Vejam Steven Universe, gente. Minha vontade é colocar uma porção de links aqui para convencer vocês, mas não quero dar spoiler. Mas toma essa pedrada aqui de amor para se convencer:

Para quem quiser ver os desenhos, cada um tem 11 minutos de duração e estão disponíveis nesse link aqui: http://tocatoon.com/category/steven-universe/steven-universe-1a-temporada/

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