METAFÍSICA DE ARISTÓTELES — LIVRO I (ALPHA)

(1) No primeiro capítulo do livro I (Alpha) da Metafísica, Aristóteles elabora um quadro no qual é fornecido diferentes tipos de conhecimentos, sendo eles posicionados hierarquicamente e nomeados como: sensação, experiência, técnica e sabedoria (ou ciência). Neste quadro, a sensação é o conhecimento considerado mais comum, porque por natureza, até os animais que são seres irracionais nascem dotados de sensação. Essa constatação é iniciada através da afirmação da natureza humana possuir o desejo do conhecimento, que surge a partir das sensações, e que são captadas principalmente através da visão, “Todos os homens por natureza propendem ao saber. Sinal disso é a estima pelas sensações: até mesmo à parte de sua utilidade, elas são estimadas em si mesmas e, mais que as outras, a sensação através dos olhos.” (Aristóteles, 980a21–23). Julga-se que nenhum tipo de sensação é sabedoria, porque, de acordo com Aristóteles, elas não dizem o porquê de acontecer algo, apenas dizem que esse algo acontece. A experiência surge através da memória, “diversas recordações de um mesmo fato perfazem a capacidade de uma experiência.” (Aristóteles, 980b28); ou seja, você só é dotado de experiência após o reconhecimento em sua memória, e a memória sendo uma forma de relembrar experiências, é também o que distingue o homem dos animais. Na prática, a experiência não parece haver distinção entre a técnica, porquanto a mesma é adquirida através da experiência, mas ao analisá-las individualmente, percebe-se que a experiência se trata de um conhecimento singular. Já a técnica é o experimento dos universais, “A técnica nasce quando, de diversas considerações de experiência, surge uma única noção universal a respeito de semelhantes.” (Aristóteles, 981a5–6), porém usa-se o conhecimento singular (a experiência) através do conhecimento geral (técnica), por exemplo, um médico, ao receitar um medicamento ao paciente está usando sua técnica, ou seja, seu conhecimento universal, para tratar de um caso em particular. Entretanto, apesar de possuírem graus de especialidades diferentes, a experiência e a técnica se relacionam entre si, “a causa disso é que a experiência é conhecimento de coisas particulares, ao passo que a técnica é conhecimento de universais, e todas as ações e processos são concernentes a algo particular.” (Aristóteles, 981a14–16). Contudo, pode-se considerar a técnica mais conhecimento que a experiência, isso acontece porque os experientes conhecem o “que”, não o “por que”, a causa da coisa, já os que possuem a técnica, são considerados mais sábios, pois conseguem explicar sobre a causa. “Por isso, em cada domínio, também consideramos que os “mestres-de-obra” sabem mais e são mais valiosos e sábios que os “trabalhadores braçais”, porque sabem as causas daquilo que está sendo produzido (ao passo que estes últimos, tal como coisas inanimadas, fazem algo, mas fazem sem saber aquilo que fazem…)” (Aristóteles, 981a26–29). Desse modo, através das técnicas foi criada a ciência. E essa ciência pode ser colocada no topo da hierarquia pelo seu caráter investigativo, que procura saber as causas, os princípios, do mundo. O entendimento das causas é a verdadeira ciência, o saber absoluto. Consequentemente, é tido que o experiente é mais sábio que aquele dotado de sensações, o técnico mais sábio que o experiente, e aquele que usufrui da ciência, mais sábio que o técnico. Portanto, apesar de possuírem graus diferentes de relevância, todos esses conhecimentos possuem também relações de dependência entre si, pois é visto que esses conhecimentos funcionam através de etapas, e cada etapa possui um nível de “importância” que se relacionam entre si de alguma maneira. 4

(2) No segundo capítulo do livro I da Metafísica de Aristóteles, no trecho 982a-8, Aristóteles faz uma afirmação através da premissa de que é considerado sábio aquele que conhece todas as coisas, porém não qualquer coisa, mas sim as consideradas difíceis. Além desse conhecimento, o sábio é aquele que consegue ensiná-las. Esse trecho se dedica à investigação do que é um homem sábio, e de acordo com o que é afirmado, só o sábio é aquele capaz de ensinar, já que conhece a causa, “Além disso, no que respeita a qualquer conhecimento, consideramos ser mais sábio aquele que é mais exato e que tem maior capacidade de ensinar as causas.” (Aristóteles, 982a12). A ciência (sabedoria) é considerada o conhecimento mais importante que o homem pode auferir, porque além de possuir a sua forma mais exata de conhecimento, ela é composta por itens primeiros, que são as causas. Contudo, a ciência que se procura é esta, a ciência contemplativa, teorética dos primeiros princípios e das causas, sendo o “por que” uma das causas. É sábio aquele que comanda e não o que é subordinado, pois aquele que comanda é “aquele que sabe em vista de que cada coisa deve ser feita; e isso é o bem de cada coisa e, em geral, é o melhor, em toda natureza.” (Aristóteles, 982a36- 37).

(3) A sabedoria em relação aos demais tipos de conhecimento é o único conhecimento que está posicionado no topo do quadro hierárquico feito pelo autor, sua importância se justifica através do fato de que ela é considerada uma ciência exata, aquela que é dotada de princípios primeiros, que procura saber as causas exatas das coisas, uma ciência com cunho investigativo. O capítulo 1 se dispõe da explicação dos tipos de conhecimentos e qual a importância de cada um no quadro hierárquico, começando pela sensação, e finalizando com a ciência. Esse capítulo tem como objetivo mostrar também que o desejo do saber é natural entre os homens, e esses graus de conhecimento se diz respeito ao nível de conhecimento que o homem propende, ou seja, o homem dotado de sabedoria é visto como mais sábio que aquele que possui somente a experiência como conhecimento. Sendo estabelecido no capítulo anterior sobre a existência da ciência como sendo o conhecimento de maior importância, no segundo Aristóteles trabalha com a caracterização da mesma, e com a investigação a respeito de quais causas e princípios a sabedoria é uma ciência. “Por tudo que foi dito, a denominação que procuramos recai sobre a mesma ciência: ela deve e uma ciência que estuda os primeiros princípios e causas (pois também o bom, isto é, o em vista de que, é uma das causas).” (Aristóteles, 982b7). Portanto, pode-se extrair desses dois capítulos analisados que a sabedoria é a mesma coisa que ciência, e que a ciência, segundo o autor, é que tem por finalidade o conhecimento teorético, ou seja, aquele que visa às causas e a razão, a ciência das causas primeiras. E sendo a ciência que trabalha acerca dessas causas, é, em suma, o conhecimento mais importante.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução, introdução e notas Lucas Angioni. Departamento de Filosofia. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas — IFCH UNICAMP.